O mercado como fundamento da teoria racista ou do fetichismo da epiderme.

Autores: Artur Bispo dos Santos Neto (UFAL); Tatiana Lyra Lima Félix (UFAL). Link: https://periodicos.ufes.br/temporalis/article/view/47829

Arquivo
ID+47829++PDF+A.pdf
Documento PDF (251.6KB)
                    O mercado como fundamento da teoria racista ou do fetichismo da epiderme
The market as the foundation of racista theory or epidermis fetishism
Tatiana Lyra Lima Félix
https://orcid.org/0000-0002-0775-6586

Artur Bispo dos Santos Neto
https://orcid.org/0000-0003-4669-096X

RESUMO
O presente texto1 pretende prescrutar a capilaridade do processo de racialização dos seres humanos na etapa
do capital monopolista escrutinando, primeiro, a conexão estabelecida entre mercado de trabalho e mercado
de escravos/as, ou seja, buscando elucidar a relação dialética de continuidade e descontinuidade existente
entre os referidos mercados e sua peculiaridade no desenvolvimento do modo de produção capitalista.
Segundo, como a transformação dos seres humanos em mercadorias se constituiu como um ponto de
inflexão para a universalização do processo de produção de mercadorias que pauta o desenvolvimento das
relações capitalistas e o sistema do capital. Terceiro, como a igualdade jurídico-normativa serve de base para
a constituição da desigualdade econômica e dos processos de desumanização que encontram seu
coroamento na teoria racista forjada na etapa imperialista do capitalismo. Pela mediação do método
dialético, são elucidadas as contradições que perpassam a sociabilidade regida pelo sistema do capital,
recorrendo às posições contrapostas ao racismo apresentadas por autores, como: Karl Marx, Eric Williams,
René Depestre, Augusto Buonicore, entre outros.
PALAVRAS-CHAVE
Fetiche da mercadoria; Reificação dos racializados; Trabalho escravo; Trabalho assalariado; Mais-valor.
ABSTRACT
This paper aims to scrutinize the permeability of the process of racializing human beings in the stage of
monopolistic capital by first examining the connection between the labor market and the slave market. In


Professora Universitária. Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL, Maceió,
Brasil). E-mail: tatianalyra@yahoo.com.br

Professor Universitário. Doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL,
Maceió, Brasil). Docente de Graduação e Pós-Graduação do Curso de Serviço Social na Universidade Federal
de Alagoas (UFAL, Maceió, Brasil) e Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Cientí昀椀co e Tecnológico (CNPq, Distrito Federal, Brasil). E-mail: artur.neto@ichca.ufal.br
1
Manuscrito elaborado por pesquisador/a Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 2. Agência
昀椀nanciadora da pesquisa: Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientí昀椀co e Tecnológico (CNPq).
DOI 10.22422/temporalis.2025v25n49p255-270
© A(s) Autora(s)/O(s) Autor(es). 2025 Acesso Aberto Esta obra está licenciada sob os termos da Licença Creative
Commons Atribuição 4.0 Internacional (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR), que permite copiar e redistribuir o
material em qualquer suporte ou formato, bem como adaptar, transformar e criar a partir deste material para qualquer 昀椀m, mesmo que
comercial. O licenciante não pode revogar estes direitos desde que você respeite os termos da licença.

255
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

other words, it seeks to elucidate the dialectical relationship of continuity and discontinuity between these
markets and their peculiarity in the development of the capitalist mode of production. Second, it analyzes
how the transformation of human beings into commodities became a turning point for the universalization
of the commodity production process, which underpins the development of capitalist relations and the
capital system. Third, it explores how juridical-normative equality serves as a foundation for the
establishment of economic inequality and the processes of dehumanization, culminating in the racist theory
forged in the imperialist stage of capitalism. Through the mediation of the dialectical method, this study will
elucidate the contradictions that permeate sociability under the capital system, drawing on anti-racist
perspectives presented by authors such as Karl Marx, Eric Williams, René Depestre, Augusto Buonicore,
among others.
KEYWORDS
Commodity fetishism; Reification of racialized individuals; Slave labor; Wage labor; Surplus value.

Introdução

O

presente texto parte do entendimento de que a elucidação do racismo está
conectada à apreensão do conceito de mercado mundial. A compreensão da
passagem do mercado de escravos/as para o mercado de trabalho assalariado deve
observar também as relações que foram preservadas, pois geralmente se
concentram nas relações as descontinuidades e pouco se acentuam os aspectos latentes
que permanecem ocultos e se constituem como o fundamento ontológico do sistema do
capital.
É importante escrutinar como o desiderato das trabalhadoras e trabalhadores racializadas,
considerados como animais de atração ou burros de carga, permanece no processo de
apropriação do tempo de trabalho na forma assalariada. A força de trabalho passa a ser
vendida como mercadoria e não mais a trabalhadora e o trabalhador por inteiro.
Entretanto, subsistem diferenciações que não podem ser desconsideradas. Por isso, é
fundamental perquirir os fundamentos do sistema que recorreu aos fetichismos da
epiderme2 e da racialização para plasmar as relações sociais e aprofundar a apropriação e
a acumulação do mais-valor de forma desmedida. Cumpre esclarecer, pela mediação das
contribuições deixadas por Karl Marx em sua obra fundamental (O capital), como as formas
valor e mais-valor se forjam, primeiramente, no interior da constituição do mercado
internacional de escravos/as.
A análise dialética é essencial para elucidar a peculiaridade do mercado de trabalho e como
o trabalho dos seres humanos racializados se forja como aspecto fundamental para o
processo de acumulação de capitais no passado e nos tempos hodiernos. Ao salientar as
contradições que perpassam o modo de produção capitalista, o método dialético marxiano
procura desvelar as diferenças em meio a afirmação incessante do dinheiro como forma de
suprassunção de todas as diferenças e do capital como capacidade inexorável de redução
de todas as diferenças à conditio sine qua non de diferença nenhuma.

O fetichismo da epiderme é um termo adotado por René Depestre (1980, p. 11) que o interpreta como uma
espécie de <昀椀o político do capital=; em que, por trás <dele projeta-se a sombra alienante e rei昀椀cante da
propriedade privada. É a situação objetiva de um tipo social de homens, o dos mestres europeus, que
reduziram ao estado de propriedade um outro tipo social de homens, os escravos africanos=.
256
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856
2

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

Capital-comercial como transição para o capital industrial
O capital não nasceu pronto e acabado, mas se forjou historicamente, existindo nas
sociedades precedentes tal como os deuses nos intermúndios de Epicuro (Marx, 2017a, p.
154). O capital supera a sua condição de mero objeto e se converte numa relação social
envolvente e dominante que controla todos os poros da sociabilidade capitalista. No
entanto, antes de constituir-se como força hegemônica que subordina tudo aos seus
imperativos, o capital precisou conviver com os modos de produção precedentes,
existindo nas formas usurária e comercial, enquanto manifestação de suas formas
antediluvianas de existência.
O escravismo mercantil constituiu uma alternativa à necessidade de superação dos limites
do modo de produção feudal. As formas pretéritas do capital (usurário e comercial)
colaboraram a fim de conduzir o sistema feudal ao seu fenecimento, à proporção que
estabelecia tanto o elemento para o aprofundamento da crise quanto tirava proveito de
cada uma das crises sucedidas no Ancien Régime. Isso indica que o escravismo mercantil
somente conduz ao desenvolvimento das relações capitalistas quando conectado ao
mercado mundial; sem ele o valor de troca (valor) não poderia forjar-se como elemento
determinante de todas as relações sociais.
A escravidão antiga se distingue da escravidão mercantil (capitalista) porque o valor de
troca não se constitui como sua forma predominante, mas se acha subordinada ao valor de
uso, sem que o próprio movimento da produção emanasse de uma fome insaciável de
trabalho excedente (mais-valor) ou do valor que se valoriza, como no interior do modo de
produção capitalista. A exploração máxima da força de trabalho escrava não se fazia de
maneira tão categórica no interior da escravidão antiga como se dá na escravidão
mercantil, em que as escravas e escravos são consumidas até a morte na perspectiva de
produzir o máximo de mais-valor. O trabalho excedente existia e garantia a reprodução do
senhor no escravismo e no feudalismo, mas inexistia o preceito do valor que se valoriza,
que impõe a necessidade incondicional da exploração desmedida da força de trabalho
indígena, negra, e branca europeia.
Apesar de a produção de excedente se constituir como fundamento de todas as
sociedades de classes, no modo de produção capitalista ele ocorre pela mediação das
relações de troca constituídas pelo mercado internacional. Neste se produz não para
atender às necessidades humanas, mas às necessidades do mercado. Isso implica que o
capitalista não passa de uma personificação do capital, ele não controla a produção nem
produz mercadorias para atender as suas necessidades pessoais.
O mercado de escravos serviu de prólogo ao mercado de trabalho assalariado, uma vez
que os seres humanos escravizados eram comercializados de maneira semelhante às
demais mercadorias. O ser humano escravizado aparece na história como a primeira forma
de configuração do dinheiro como meio de circulação. Escreve Marx (2017a, p. 163):
<Frequentemente os homens converteram os próprios homens, na forma de escravos, em
matéria monetária original, mas jamais fizeram isso com o solo=. Os povos nômades foram
os primeiros a usar as pessoas escravizadas como forma-dinheiro, pelo caráter móvel dos
bens e pela facilidade de realizar a permuta daquilo que possuíam. Depois encontraram
257
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

formas mais sofisticadas, como os metais (ouro e prata), para encarnar a condição de
equivalente universal nas relações de troca.
Não se pode esquecer que a escravização africana praticada pelos europeus foi precedida
pela escravidão dos eslavos3 e que a escravização praticada pelos ingleses foi antecedida
pela escravização dos camponeses pobres e miseráveis da Alemanha, da Irlanda e da
própria Inglaterra etc.4 Assim, o mercado de escravos/as foi introduzido na América e na
África pelos representantes do capital mercantil europeu; primeiro, porque inexistia um
exército de trabalhadores disponíveis na Europa; segundo, devido ao excesso de terras nas
colônias que impedia o processo de constituição do trabalho assalariado, haja vista que o/a
trabalhador/a em potência (aborígenes) não aparecia alienado dos seus meios de produção
e subsistência (Marx, 2017a).
A avidez de força de trabalho nas colônias se intensifica em virtude das dificuldades dos
<indígenas= em adaptar-se as exigências da produção para troca e por conta de a Europa
não dispor de capacidade para deslocar contingentes populacionais significativos para
desenvolver processos de produção nas colônias. A reação ao processo de ampliação da
escassez de mão de obra na Península Ibérica se inscreveu mediante a intensificação da
servidão, em que a exploração do trabalho do camponês estava abaixo dos escravos das
galés (Dobb, 1983).
A necessidade de ligar o servo à terra pela mediação da força representa o prenúncio <do
que irá acontecer, em escala superampliada, no Novo Mundo, onde a escravidão adquire o
caráter de trabalho forçado — do mesmo modo que a segunda servidão europeia5 — de
onde se extrai a mais-valia absoluta para um voraz processo de acumulação de capital=
(Mazzeo 1997, p. 211). O tráfico antigo de escravos/as foi revigorado para atender à
demanda dos senhores de terras por trabalhadores e ao processo de europeização da
produção açucareira na perspectiva de maximizar os lucros comerciais, que encontraria seu
pleno esplendor nas coloniais americanas. Segundo Mazzeo (1997, p. 212):

O nome <escravo= está relacionado ao povo que habitava a parte oriental da Europa chamado eslavo. O
termo sclavus remete aos eslavos, sendo adotado pelos alemães nos séculos X e XI d.C. A palavra usada pelos
alemães para designar o indivíduo procedente de país eslavo e submetido ao cativeiro acabou sendo
difundido nas cidades comerciais italianas (Veneza, Genova) e na bacia do Mediterrâneo. Desse modo,
observa-se que os eslavos foram apreendidos e tra昀椀cados entre o Mar Negro e o Mediterrâneo, servindo ao
comércio estabelecido entre mercadores europeus e as dinastias que forjaram o império muçulmano
(Gorender, 2016a).
4
Gorender (2016b, p. 107) assinala três características básicas do processo de escravização: <a) propriedade
privada de outro indivíduo; b) trabalha sob coação física; c) todo o produto de seu trabalho pertence ao
senhor=. Marx (2017a) explica que nem todo produto do trabalho dos seres escravizados pertence ao senhor,
porque uma parte retorna para o escravizado sob a forma do tempo de trabalho necessário à reprodução de
sua existência social.
5
Segundo Mazzeo (1997, p. 211); <A segunda servidão dos camponeses da Europa 8[...] foi a reação dos
proprietários rurais às exigências crescentes no sentido de que o trabalho atendesse à demanda, na Europa
Ocidental, de produtos agrícolas — principalmente cereais, linho e cânhamo. Esta demanda e a troca
concomitante de matérias-primas orientais por manufaturados e supér昀氀uos ocidentais aparentemente
aumentaram, já nas últimas décadas do século XV — da mesma forma que a mineração de prata na Alemanha
–, mas elevaram-se e se consolidaram signi昀椀cativamente graças à revolução nos preços e às transformações
decorrentes na Europa Ocidental, ligadas à exploração colonial das regiões mineiras do México e do Peru9=.
258
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856
3

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

Não é por acaso que a burguesia italiana, após introduzir a 8plantation9 na Sicília,
volta-se para o Atlântico e, associada aos reinos ibéricos, juntamente com os
capitais flamengos e normandos, implementa a produção açucareira, através do
trabalho escravo, nas Canárias, nos Açores etc.

Evidentemente, o mercado de escravos/as não será o substrato fundamental do novo
modo de produção que estava sendo gestado nas entranhas do velho regime feudal; ele
tão somente serviu como intermédio fundamental para moldar o trabalho assalariado aos
preceitos do capital. E o mecanismo foi tão expressivo na Inglaterra, no decorrer do século
XVIII, que acabou ganhando uma dimensão singular no desenvolvimento de diversas
cidades inglesas.
A Inglaterra adotou a prática da escravização tanto externa quanto internamente, obtendo
acentuados rendimentos com a prática do transporte de seres humanos como mercadorias
vivas. Dessa forma, foi elevada à potência de primeira grandeza internacional no decorrer
do século XVIII. Liverpool, por exemplo, teve grande crescimento com base no comércio
de escravos. Segundo Eric Williams (2012, p. 71): <Calcula-se que o tráfico escravo, em seu
conjunto, tenha gerado só para Liverpool, nos anos 1780, um lucro líquido de 300 mil libras
anuais=. Os corpos dos seres humanos capturados violentamente e explorados
incessantemente serviram de argamassa no processo de construção de Liverpool.
Anota Williams (2012, p. 104): <Era comum dizer que várias ruas principais de Liverpool
tinham sido traçadas pelas correntes dos escravos africanos, e que as paredes das casas
haviam sido cimentadas pelo seu sangue=. Esta não foi a única cidade que ascendeu
economicamente mediante a exploração dos/as africanos/as; além dela, merecem
destaque, pelo seu grau de relevância, cidades portuárias como Bristol e Glasgow. O
intenso comércio de escravos/as conferiu a Bristol a condição de segunda maior cidade
inglesa. E a recorrência ao trabalho escravo permitiu a seguinte missiva de um comentarista
da época: <Não existe um tijolo na cidade que não tenha sido cimentado com o sangue de
um escravo.= (Williams, 2012, p. 101–102).
Ao estabelecer as bases para o desenvolvimento do capital industrial, o capital comercial
passou a ser determinado pelo capital industrial e financeiro. Escreve Marx (2017b, p. 377):
[...] a necessidade imanente que este último possui de produzir em escala cada
vez maior gera um impulso à constante expansão do mercado mundial, de modo
que, nesse caso, não é o comércio que revoluciona a indústria, mas é ela que
revoluciona constantemente o comércio.

O domínio comercial é agora determinante da predominância maior ou menor das
condições da indústria moderna.
Embora o desenvolvimento do mercado de escravos/as pareça incompatível com o
desenvolvimento das relações genuinamente capitalistas, estas relações somente se
consolidam pela mediação da exploração do trabalho escravo. Graças à acumulação
resultante da exploração dessa modalidade de trabalho, o capital pode forjar uma relação
distinta da assentada diretamente da existência do trabalho compulsório. A formação do
trabalho assalariado se inscreve pela mediação das condições contraditórias ofertadas pela
259
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

exploração do escravo e da escrava como mercadorias e não somente sua força de
trabalho.
O mercado de trabalho assalariado preserva aspectos das estruturas sociais forjadas nos
escândalos do tráfico negreiro e no regime da plantation, constituindo uma rede
sofisticada de <fios invisíveis= em que o trabalhador imagina receber pela totalidade de sua
jornada de trabalho. Os escândalos do trabalho escravo continuam a perpassar o mercado
de trabalho; pois a força de trabalho dos racializados e racializadas é cotidianamente
submetida à estrutura do sistema do capital.
Por sua vez, a ascendência do capital industrial representa o aguçamento do
desenvolvimento do mercado mundial, em que o mercado de escravizados passa a
representar um entrave ao processo de generalização das relações de venda e compra de
mercadorias, uma vez que a força de trabalho efetivamente se transformou numa
mercadoria. A venda da força de trabalho como mercadoria passa a ser essencial no
processo de reprodução das relações capitalistas e na sustentação do mercado mundial,
pois permitirá que a classe trabalhadora possa acessar o valor de uso das mercadorias pela
mediação da troca. Sem a venda de força de trabalho como mercadoria, a classe proletária
não poderia reproduzir sua existência material nem colaborar na expansão do mercado
mundial.
As relações que permanecem articuladas aos imperativos do capital comercial passam a
representar um entrave ao desenvolvimento do mercado mundial e a se configurar como
anacrônicas e reacionárias quando comparadas com o desenvolvimento do capital
industrial. Conforme Marx (2017b, p. 371): <Aqui as condições sociais particulares que se
formaram com o desenvolvimento do capital comercial deixam de ser determinantes; pelo
contrário, onde esse capital predomina imperam condições obsoletas=.
Essa anomalia não desaparece por completo no interior do modo de produção capitalista,
porque o capital não deixa de recorrer às <condições obsoletas= para continuar se
desenvolvendo de maneira desigual e combinada. Elas podem episodicamente dirimir as
crises de expansão e acumulação que perpassam o capital; no entanto, o mercado de
escravos/as não mais viabiliza o desenvolvimento das relações capitalistas.
O trabalho abstrato e o processo de coisificação da força de trabalho racializada
As veias abertas do trabalho vivo têm uma determinada fisionomia e uma determinada
anatomia. A caracterização dessa fisionomia é reiteradamente obliterada, mistificada e
fetichizada, porque o capital possui uma capacidade singular de apagar suas pegadas com
o trabalho vivo, em especial sua relação visceral com o trabalho objetivado pelos seres
racializados: com seus rostos, suas mãos e seus corpos esmagados pela intensificação da
exploração e da desumanização. Desse modo, o trabalho concreto do artesão, do operário,
do carregador de carvão, do limpador de fossas e das mil e uma utilidades subalternas —
dos braços que servem para produzir tudo, para lavar tudo e cuidar de tudo — convertese em trabalho abstrato. Neste, suas habilidades, destrezas e capacidades individuais
comparecem simplesmente como <nervo, músculo e cérebro=.

260
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

As particularidades de cada trabalhadora e trabalhador, que marcava as sociedades précapitalistas, desaparecem para, em seu lugar, emergir simplesmente o elemento
quantitativo. O conteúdo material do trabalho abstrato surge na forma de <músculos,
nervos e cérebros= (Marx, 2017a). Cada trabalhadora e trabalhador perde a sua identidade
e se torna o portador de uma substância gelatinosa, destituída do conteúdo objetivo que
caracteriza o trabalho concreto.
Nas sociedades pré-capitalistas, seria completamente fora da realidade afirmar que
quando um indivíduo estivesse pescando não estava pegando peixes, mas somente
empregando <músculos, nervos e cérebro= em sentido abstrato, ou seja, que ele estava
simplesmente produzindo valor para o mercado (Kurtz, 2005). É preciso esclarecer que o
trabalho abstrato não passa da mistificação universal dos corpos concretos, dos nervos
concretos, dos músculos e dos cérebros das trabalhadoras e trabalhadores e que na base
fundamental de todo esse processo de abstração se encontram os seres humanos
racializados.
Para o <sujeito automático= do processo de valorização, pouco importa que sejam
produzidos casacos ou artefatos bélicos; o fundamental é que no processo de produção
ocorra a combustão propiciada pela força de trabalho, enquanto dispêndio de energia (de
músculos, nervos e cérebros) na forma social do valor para o mercado. Assim, os processos
de exteriorização do trabalho se dão pelas costas dos produtores, ou seja, de maneira
independente de sua forma concreta, do conteúdo material. Os trabalhadores e as
trabalhadoras não controlam o processo de produção, mas são por este controlados
(Marx, 2017a).
No modo de produção capitalista, a classe trabalhadora não é mais escrava/o, mas a sua
força de trabalho se transforma em mercadoria. Ao contrário da escrava/o, a
trabalhadora/or pode vender sua força de trabalho como mercadoria, porque é sua
proprietária e dispõe dela livremente (Marx, 2017a, p. 242). O comprador da força de
trabalho e o possuidor da força de trabalho encontram-se no mercado como livres e iguais
juridicamente. No entanto, a igualdade oferecida pelo direito não passa da igualdade
abstrata que decorre do trabalho abstrato.
A esfera da circulação de mercadorias é o <verdadeiro éden dos direitos naturais do
homem= (Marx, 2017a, p. 250); é o incontestável campo de manipulação da consciência
trabalhadora pela ideologia burguesa. O retumbante discurso da liberdade e da igualdade
natural da Declaração dos direitos do homem e do cidadão (1789) se esvai diante do pórtico
nada grandioso da fábrica em que está escrito: <No admittance except on business [Entrada
permitida apenas para tratar de negócios]= (Marx, 2017, p. 250).
Toda liberdade do processo de circulação de mercadorias ocorre de uma maneira
diferenciada quando se penetra na urdidura da produção e se abandona a esfera da
circulação de mercadorias. A liberdade decantada pela esfera da troca de mercadorias é
completamente refutada quando se adentra no interior da fábrica; o capitalista controla a
força de trabalho de maneira ubíqua, na perspectiva de não deixar que se perca um átomo
do tempo de trabalho comprado.
261
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

É preciso lembrar que o capital é uma totalidade contraditória formada pela produção e
circulação. A despeito de a circulação não criar mais-valor, não se pode produzir mais-valor
sem considerar a esfera da circulação. Marx (2017a, p. 212) aponta a dialética que modela
essa relação: <Portanto, o capital não pode ter origem na circulação, tampouco pode não
ter origem circulação. Ele tem de ter origem nela e, ao mesmo tempo, não ter origem nela=.
Uma vez concluídos os três ciclos (capital monetário, capital produtivo e capital
mercadoria) que integram o processo de produção e realização do valor e mais-valor, o
capitalista deve novamente reiniciar todo o ciclo D-M-D9, recomeçando sempre como D,
sem revelar sua história pregressa de acumulação de mais-valor.
Para fazer isso, o capitalista, enquanto personificação do capital, precisa sugar cada gota
de sangue do/a trabalhador/a. Como o senhor de escravos, ele é uma serpente
promovendo aflições e torturas no corpo e na mente do/a trabalhador/a, retirando deste
todas as energias existentes. O capitalista é a encarnação visceral da alma sedenta de maisvalor do capital. Para realizar seu desejo insaciável de captura de mais-valor e de
autovalorização, o trabalho morto se ergue contra o trabalho vivo na perspectiva de sugar
seu sangue da forma mais célere possível. Escreve Marx (2017a, p. 307): <O capital é
trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive
tanto mais quanto mais trabalho vivo suga=.
No entanto, essa forma somente pode ser desvelada paradoxalmente pela afirmação do
preceito da igualdade universal de todos os seres humanos e pela afirmação de
equivalência de todas as formas de trabalho do ponto de vista jurídico. Uma vez que a
inexistência da igualdade social impediu Aristóteles de elucidar a teoria do valor. Escreve
Marx (2017a, p. 136): <Aristóteles não podia deduzir da própria forma de valor, posto que
a sociedade grega se baseava no trabalho escravo, por conseguinte, tinha como base
natural a desigualdade entre os homens e suas forças de trabalho=. Por isso que <o espírito
humano tem procurado elucidá-la em vão há mais de 2 mil anos= (Marx, 2017a, p. 78).
Somente num contexto de afirmação formal da igualdade e da liberdade será possível
elucidar a teoria do valor. Nesta, a mercadoria comparece como a forma celular da
produção capitalista. Nota-se que a igualdade é um preceito fundamental para que
subsistam a relação de troca das mercadorias entre si. O elemento que assegura que coisas
completamente distintas possam ser trocadas é o tempo de trabalho socialmente contido
em cada mercadoria.
Há em cada mercadoria um invólucro místico que oculta o fundamento da relação de troca
e faz com que a troca pareça ser o fundamento do valor, e não o tempo de trabalho ser o
fundamento das relações de troca. O <caráter de fetiche= do mundo das mercadorias brota
da própria natureza social do trabalho que produz mercadorias, ou seja, decorre da
peculiaridade do trabalho abstrato.
Os trabalhos privados movimentam-se como elos do trabalho social por meio das relações
que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, também com os
trabalhadores e trabalhadoras. Os produtores experienciam relações sociais com os seus
trabalhos privados <não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus
próprios trabalhos, mas como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre
262
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

coisas= (Marx, 2017a, p. 143). Assevera Marx (2013, p. 144): <Seu próprio movimento social
possui, para eles, a forma de um movimento de coisas, sob cujo controle se encontram, em
vez de eles as controlarem=.
A mercadoria tem analogia com o mundo metafisico da religião; no entanto, as
mercadorias, salienta Marx (2017a, p. 148), são <produtos da mão humana= e do <cérebro
humano=, enquanto a religião é somente um produto da imaginação que incide sobre a
forma de ser dos indivíduos no mundo. Porque são produtos das mãos que aparecem como
afastados do mundo da produção humana e dotados de existência própria, Marx (2017a, p.
148) denomina de fetichismo6, aquilo <que se cola aos produtos do trabalho tão logo eles
são produzidos como mercadorias e que, por isso, é inseparável da produção de
mercadorias=.
O fetichismo não resulta de uma deformação da consciência nem se configura como uma
problemática individual, senão como um fenômeno essencialmente social. Resulta de uma
relação social tipicamente conformada pela economia de mercado. Marx (2017a) esclarece
como as vicissitudes dos produtos das mãos humanas se portam como algo exterior e
dotado de poderes autônomos e sobrenaturais. Ou como o objeto produzido pelo cérebro
humano converte-se em fetiche, deixa de ser reconhecido como produto humano e passa
a ser tido como dotado de poderes transcendentes e divinos.
É ledo engano imaginar que o trabalho assalariado representa a entronização da liberdade
humana; pelo contrário, a única liberdade representada pelo trabalho assalariado é o
afastamento gradual e completo da classe trabalhadora de seus meios de produção e de
seus meios de subsistência. Marx (2017a, p. 364) destaca que o primeiro direito humano do
capital se denomina <direito à igual exploração da força de trabalho=. Da mesma maneira
que o senhor de escravos, cada capitalista age na perspectiva de retirar o máximo de cada
trabalhador/a no mais curto espaço de tempo, pois a produção capitalista promove <o
esgotamento e a morte prematuros da própria força de trabalho. Ela prolonga o tempo de
produção do/a trabalhador/a durante certo período mediante o encurtamento de seu
tempo de vida= (Marx, 2017a, p. 338). Isso foi tão notório que o capital precisou esperar
pelo menos três séculos para que a classe trabalhadora <aceitasse livremente — isto é,
fosse coagido a — vender a totalidade de seu tempo de vida, até mesmo sua própria
capacidade de trabalho, pelo preço dos meios de subsistência que lhe são habituais, e sua
primogenitura por um prato de lentilhas=.
É preciso superar as mistificações habituais que tendem a naturalizar as relações impostas
pelo mercado de trabalho assalariado, pois a promulgada <liberdade= da venda da força
de trabalho como mercadoria se inscreveu mediante a recorrência às <leis sanguinárias=, a
coerção direta do poder estatal; sem o qual o capital jamais poderia ter exercido seu
controle absoluto sobre o trabalho. Esse foi o itinerário que encontrou seu esplendor
Christina Antenhofer (2011) assinala que o termo <fetiche= emergiu no contexto do comércio e da
navegação marítima do Atlântico lusófono, que tanto serviu para regular as relações comerciais quanto
configurou-se como uma espécie de talismã ou objeto de proteção religiosa, que também poderia ser usado
para selar acordos comerciais. Essa posição serve para superar a concepção superficial que considera os
africanos praticavam o fetichismo, como seria igualmente ingénuo e superficial retratar os portugueses como
<idiotas=.
263
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

6

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

quando o capital conseguiu plasmar um monumental exército industrial de reserva, em que
dezenas de milhares de trabalhadores/as abdicaram completamente de sua primogenitura
no processo de produção por um prato de lentilhas que não assegura a plenitude da
reprodução de sua existência biológica e social.
E o capital não demonstra a menor preocupação com as condições de vida e a saúde da
classe trabalhadora porque conseguiu forjar um exército industrial de reserva crescente e
monumental. Diante da possibilidade da fácil substituição do proletariado empregado, a
vida proletária não possui qualquer relevância, passando a ser completamente
desconsiderada, uma vez que sobram <nervos, músculos e cérebros= disponíveis no
mercado de trabalho. Diante das queixas sobre <a degradação física e mental, a morte
prematura, a tortura do sobretrabalho, ele responde: deveria esse martírio nos martirizar,
ele que aumenta nosso gozo (o lucro)= (Marx, 2017a, p. 338). Esse tratamento concerne às
inexoráveis leis imanentes da produção capitalista. Pouco importa que as correntes sejam
de ouro, elas continuam sendo correntes (Marx, 2017a).
O caráter imediatamente social da produção capitalista se inscreve como profunda
dissipação da vida e da saúde da classe trabalhadora. Não se pode esquecer que a produção
capitalista, assevera Marx (2017b, p. 116), <é, num grau muito maior que qualquer outro
modo de produção, uma dissipadora de seres humanos, de trabalho vivo, uma dissipadora
não só de carne e sangue, mas também de nervos e cérebro=. A configuração da forma
mais poderosa de extração de mais-valor existente na história não poderia deixar de ser
também a forma mais dissipadora de <carne e sangue=, de <nervos e cérebro= de seres
humanos; especialmente dos seres humanos epidermizados.
Como não é possível separar objetivamente o proletariado de sua força de trabalho, eles
são tratados na sua inteireza também como mercadorias, selecionados como mercadorias
(os mais capazes e hábeis, os mais destros e mais inteligentes etc.), transportados como
pacotes de mercadorias, marcados com etiquetas e como fardos. É dessa maneira que são
inseridos ao mercado. A produção de mercadorias tem como vetor fundamental a
produção de valor que se valoriza pela mediação da apropriação do tempo de trabalho
excedente que cada trabalhador/a entrega gratuitamente ao capitalista.
O trabalho do ser humano racializado tem papel fundamental na universalização dos
processos de despersonalização dos seres humanos e dos processos de personalização das
coisas. A despersonalização da condição humana que perpassava o escravo foi
universalizada; as relações sociais que tornavam o ser humano racializado numa
mercadoria asseguraram a acumulação originária de capitais e permitiram a conversão do
capital num sistema autossuficiente e absoluto perante todas as outras formas de
organização da vida objetiva. A reificação parcial se transformou numa reificação absoluta
e o fetichismo parcial tornou-se inerente ao processo de organização da vida material. O
capital se revela como potencialidade com capacidade de <criar a partir de si os órgãos que
ainda lhe faltam=. Ele configura-se tanto como uma espécie de força motora e <criadora=
quanto como dotado da capacidade de criar órgãos, por ser <sistema orgânico=7.
Escreve Grespan (2012, p. 210): <Mas 8órgãos que ainda lhe faltam9, pois ele é antes o processo de
constituição de uma totalidade orgânica e articulada e que justamente enquanto totalidade tem a capacidade
264
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

7

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

Os fundamentos da teoria racista
Um olhar atento acerca do processo de intensificação da exploração do trabalho, observarse que ele se inscreve em estreita articulação com o processo de racialização, em que as
trabalhadoras negras e os trabalhadores negros são os mais explorados tanto nas
economias dependentes quanto nas economias imperialistas. Desse modo, o processo de
racialização não pode ser transcendida sem a superação da forma do trabalho que lhe serve
de sustentação, em que o trabalho escravo foi substituído pelo trabalho assalariado, sem
a devida superação dos preceitos de dominação de classe e a apropriação do tempo de
trabalho excedente que lhe servia de sustentação e legitimação. Por isso que não é possível
elucidar a natureza do racismo sem penetrar nas urdiduras das estruturas econômicas que
lhes servem de sustentação, pois não é adentrando na personalidade dos sujeitos
envolvidos que se elucida o problema, mas mediante a investigação de sua estrutura
material.
O racismo, enquanto fetichismo da epiderme, plasma-se como mecanismo ideológico
essencial para garantir a dominação do capital sobre o trabalho na etapa do capital
monopolista. No entanto, as suas bases foram instituídas pelo mercado de escravos na
etapa do capital mercantil ou comercial. A exploração do trabalho escravo se forjou como
principal vetor da acumulação por espoliação que sedimentou os mecanismos essenciais
para a emergência da Revolução Industrial e a passagem da subordinação formal para a
subordinação real do trabalho ao capital.
A exploração do trabalho escravo nas colônias serviu de anteparo ontológico para a
constituição da ideologia racista forjada nas metrópoles. Como bem explica Williams (2012,
p. 34): <A escravidão não nasceu do racismo: pelo contrário, o racismo foi consequência da
escravidão=. O escravismo mercantil foi essencial para a consolidação da ideologia
centrada no fetichismo da epiderme na etapa perpassada pela predominância do capital
financeiro ou do capitalismo monopolista.
Embora as desigualdades sociais, discriminações e preconceitos sejam tão antigos quanto
a história das sociedades de classes, o racismo se inscreveu como um suporte fundamental
do processo de expansão e acumulação de capitais na passagem do mercantil para o capital
industrial e deste para o capital portador de juros e capital fictício. Nessa forma de
sociabilidade, o princípio da igualdade jurídica se constitui como ponto de partida para a
afirmação das desigualdades econômicas; a igualdade jurídica não passa de uma
formalidade mistificada que serve para ocultar as efetivas desigualdades econômicas.
A weltanschauung racista ou o <fetichismo da epiderme= serve aos imperativos do
mercado de trabalho forjado pelo processo acumulação de capitais na etapa imperialista.
Ela se inscreve como elemento essencial na etapa de ampliação do mercado mundial
(circulação-produção-circulação) e seu processo de ampliação do comércio de mercadorias
e do comércio de dinheiro, bem como de crescimento fortuito do sistema de crédito e do

de 8criar a partir de si9, porque cria 8órgãos9, membros de um todo. E é 8assim [que] ele se converte
historicamente em totalidade9: sua conversão nesta totalidade, o 8criar9 e recriar relações sociais enquanto
8órgãos9 é que define sua 8história9 neste sentido mais estrito e rigoroso=.
265
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

sistema de financeiro, em que as instituições bancárias e financeiras passam a controlar
ubiquamente o processo de produção e circulação de mercadorias.
A posição preconceituosa de filósofos europeus (Immanuel Kant8, David Hume e Wilhelm
Friedrich Hegel9) contra os africanos está na base do processo de constituição de uma
teoria que tem como fulcro o <fetichismo da epiderme=. Ela serviu de prólogo do racismo
que imperou na fase do capital monopolista com Johann Friedrich Blumenbach, Friedrich
Ratzel, Joseph Arthur de Gobineau, Cesare Lombroso e Herbert Spencer. Este tentou
naturalizar as relações sociais mediante o <darwinismo social=, em que as leis da natureza
são transpostas mecanicamente para as relações sociais. Pela mediação desta teoria se
procurou fortalecer as perspectivas que não se cansavam de afirmar a desigualdade entre
os seres humanos e a existência de uma classe superior de seres humanos. Desse modo, a
teoria da seleção natural das espécies permitia que os menos aptos e mais fracos deviam
fenecer e deixar menos descendentes. Para isso, Spencer recorreu à genética, à neurologia,
à sociologia e à etnologia.
Pela mediação da genética se procurou petrificar a hierarquização das raças pela
caracterização das suas formas aparentes (pigmentação da pele, formato do crânio e
configuração dos cabelos etc.). Mediante a recorrência à neurologia e à psicologia se
tentou forjar a capacidade intelectiva mediante os testes de QI e aptidões. Através da
sociologia se buscou constituir mecanismos comparativos entre animais e seres humanos,
forjando instrumentos de mensuração qualitativos para demonstrar a inferioridade dos
povos racializados. E pela antropologia e etnologia se tentaram estabelecer os padrões
para a divisão da humanidade segundo suas características físicas. Nesse contexto se
inscrevem as pesquisas cranianas do médico alemão Johann Friedrich Blumenbach, que
propôs uma divisão de seres humanos nas raças caucasoide (branca), mongoloide
(amarela), malaia (marrom), etiópica (negra) e americana (vermelha) (Bolsanello, 1996;
Magnoli, 2009).
Os apologetas da fetichização da epiderme constituíram a teoria do racismo como dotada
de envergadura científica. A pseudocientífica constituída deveria se plasmar mediante a
recorrência de uma constelação de dados manipulados da realidade e de um amontoado
de mistificações e fetichizações. Pela mediação das justificativas discriminatórias desses
teóricos, as potências financeiras encontraram os elementos ideopolíticos necessários
para dividir entre si o continente africano e estabelecer as bases para os holocaustos
cometidos na Primeira e da Segunda Guerras Mundiais contra os comunistas, os
anarquistas, os judeus, os eslavos, os asiáticos etc.

Kant (apud Foé, 2011) reproduziu as posições que prescrevem o senso comum ocidental com a a昀椀rmação
de que os sentimentos dos negros africanos são ridículos. Acrescenta que a tonalidade da pele re昀氀ete a
incapacidade africana de raciocínio, a indicar que os africanos estavam completamente impossibilitados de
alcançar a suave beleza do mundo esclarecido europeu.
9
Em sua obra Filoso昀椀a da história, Hegel claramente desprezou a relevância do continente e do homem
africano nos seguintes termos: <Não tem interesse histórico especí昀椀co, a não ser o de vermos ali o homem
na barbárie, na selvajaria, sem subministrar qualquer ingrediente integrador à cultura= (Hegel, 1995, p. 177).
O negro, acrescenta Hegel (1995, p. 180), <representa o homem natural em toda a sua selvageria e barbárie=.
E chegou ao absurdo de a昀椀rmar (Hegel, 1995, p. 186, grifo nosso): <A única conexão essencial que os negros
tiveram e ainda têm com os europeus é a da escravatura=.
266
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856
8

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

A fetichização da epiderme se expressa na figura do <homem delinquente= nas obras de
Cesare Lombroso. Nos livros <O homem delinquente=, <O crime, causas e remédios=, e
<Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas=, o referido médico aponta que o
criminoso não é um produto social, mas um produto natural. Ele é portador de um biótipo
claramente idêntico aos <negroides africanos=.
Escreve Lombroso (2013, p. 160):
Muitos estupradores têm os lábios grossos, cabelos abundantes e negros, olhos
brilhantes, voz rouca, alento vivaz, frequentemente semi-impotentes e semialienados, de genitália atrofiada ou hipertrofiada, crânio anômalo, dotados muitas
vezes de cretinice e de raquitismo.

Assim como se desconsidera a relação estabelecida genótipo e fenótipo, também se
desconsidera o hiato estabelecido entre o mundo natural e o mundo social, em que o ser
social se forja de uma maneira completamente distinta dos seres naturais. Essa ausência
de distinção tem sido bastante recorrente no interior do direito burguês, em que as
características físicas acabam classificando automaticamente os seres humanos
racializados como delinquentes e criminosos. A descrição anatômica do delinquente —
seus traços físicos, nariz enorme e achatado, lábios grossos, cabelos crespos, mandíbulas
acentuadas, ossos faciais salientes, pele negra, orelhas grandes, membros inferiores
longos — determina seu caráter de forma automática (Magnoli, 2009).
Enquanto expressão mais selvagem dos interesses do capital financeiro, o nazismo operou
uma espécie de síntese entre o determinismo geográfico de Ratzel, o racismo de Gobineau
e a anatomia (genótipo/fenótipo) do marginal de Lombroso (Magnoli, 2009). Desse modo,
as diferenças existentes na esfera da aparência (fenotípica) entre os homens serviram de
sustentação ao <fetichismo da epiderme=, uma vez que jamais procedeu a qualquer
espécie de distinção na essência (genótipo) do homem. Pela mediação das pseudociências,
a burguesia decadente tentou reciclar as ideias anacrônicas da aristocracia feudal,
eclipsando o projeto civilizatório apregoado em sua etapa revolucionária.
A tentativa de enquadrar a espécie humana na camisa de forças das raças forja-se como
formas deslavadas de fetichismo e mistificação da realidade, que é típica das posições
decadentes da burguesia e da impossibilidade de o capital deslocar suas contradições. Pela
mediação do <fetichismo da epiderme= se profunda o processo de destruição colossal das
forças produtivas e dos meios de produção, radicalizando suas desumanidades contra os
seres humanos racializados.
Pela mediação das doutrinas pseudocientíficas, o racismo se galvanizou e se proliferou em
escala abrangente a partir da segunda metade do século XIX, em que o capital precisou
conquistar todos os rincões do planeta. Desse modo, o racismo não se configura como
mero apêndice do processo de reprodução do capital, mas se constitui como parte
inerente da racionalidade necessária ao seu processo de reprodução assentada sobre o
controle absoluto do trabalho.
O racismo se inscreve como componente estrutural do processo de reprodução ampliada
do capital, que se torna cada vez mais impositivo no contexto de intensificação da crise
267
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

estrutural. No entanto, apesar de cortar como uma diagonal de alto a baixo a sociabilidade
capitalista, ele possui uma capacidade incomensurável de esconder-se no interior da
realidade brasileira, mediante o mito da democracia racial e da violência cotidiana cometida
contra os seres racializados nas periferias das cidades brasileiras e de toda a América
Latina.
Nesse processo, dá-se a primazia da emancipação do trabalho dos racializados, tanto da
apropriação desmedida do tempo de trabalho excedente quanto das formas de
discriminação e preconceitos cujo propósito é rebaixar sua autoestima e humanidade, pois
a luta de emancipação da classe trabalhadora contra todas as formas de opressão do
capital passa necessariamente, em primeiro lugar, pela superação do mercado de escravos
e pela superação do racismo. Escreve Marx (2017a, p. 372): <O trabalho não pode se
emancipar na pele branca onde na pele negra é marcado a ferro=.
Isso implica que é impossível lutar pela redução da escala de tempo apropriada
gratuitamente pelos capitalistas sem a superação das espoliações e da exploração do
trabalho análogo ao trabalho escravo. O alcance de um estado mais avançado de conquista
da classe trabalhadora denota a necessidade de unificar a luta em escala internacional ante
os preconceitos estabelecidos contra os trabalhadores e trabalhadoras racializadas e
contra a intensificação dos processos de apropriação do mais-valor. A emancipação dos
trabalhadores e trabalhadoras do mercado de trabalho passa inexoravelmente pela
completa superação do mercado de escravos latentes em seu interior.
Conclusão
No decorrer deste texto procurou-se elucidar a natureza dos mercados de escravos e de
trabalho assalariado, cuja forma mercadoria serve como seu ponto de partida e de
chegada, em que o fetichismo da epiderme está essencialmente articulado ao fetichismo
da mercadoria e ao fetiche do capital. A superação do fetichismo da epiderme requer a
superação do fetichismo da mercadoria, ou seja, do sistema assentado no trabalho
abstrato. A ultrapassagem do fetichismo da epiderme implica na superação das relações
reificadas que perpassam o sistema do capital e sua lógica reificante baseada na
acumulação incessante de trabalho excedente (mais-valor).
Nesse processo, o trabalho dos seres humanos racializados comparecem simplesmente
como <nervos, músculos e cérebros=, como uma abstração encarnada na forma da única
mercadoria com capacidade de produzir mais-valor do que por ela é paga. A dimensão
ontológica dos corpos dos seres humanos racializados é totalmente desconsiderada,
prevalecendo o processo de reificação e fetichização que interessa ao capital, enquanto
um vampiro que vive a sugar especialmente o sangue dos racializados, inferiorizados e
desumanizados. Desse modo, o desenvolvimento das relações capitalistas ao invés de
superar completamente o mercado de escravos se complexifica para resguardar a
necessidade fulcral de intensificar os processos de acumulação de mais-valor.
A questão racial está implícita na questão social, pois se trata de um processo que não se
restringe meramente a esfera ideológica; ela perpassa as relações estruturais forjadas
historicamente na perspectiva de atender os processos de acumulação e expansão do
capital. Desse modo, não se deve desconsiderar que as principais usuárias das políticas
268
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

sociais, que habitam as favelas e perfazem a maioria da população carceraria, são as
mulheres racializadas. O racismo estrutural perpassa todas as instituições burguesas,
desenvolvendo um sistema de internalização de regras assentadas no preconceito e nos
estereótipos racistas.
Referências
ANTENHOFER, Christina. Fetisch als heuristische Kategorie. In: ANTENHOFER, Christina
(Hg.). Fetisch als heuristische Kategorie: Geschichte – Rezeption – Interpretation.
November 2011, 370 Seiten, kart. Disponível em: https://www.uibk.ac.at/geschichteethnologie/institut/mitarbeiterinnen/ehemalige/antenhofer-christina/fetisch.pdf. Acesso
12 dez. 2024.
BOLSANELLO, Maria Augusta. Darwinismo social, eugenia e racismo <científico: sua
repercussão na sociedade e na educação brasileiras. Educar, Curitiba, n. 12, p.153–165.
1996. Editora da UFPR. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/er/a/sNH6RP4vvMk6wtPSZztNDyt/?format=pdf&lang=pt. Acesso
em: 20 fev. 2025.
BOUNICORE, Augusto C. <Reflexões sobre o marxismo e a questão racial=. Revista
Espaço Acadêmico, n. 51, ago. 2005. Disponível em:
http://www.espacoacademico.com.br/051/51buonicore.htm. Acesso em: 25 jan.2025.
DEPESTRE, René. Bom dia e adeus à negritude. Tradução de Maria Nazareth Fonseca Ivan
Cupertino (1980). Disponível em: http://www.ufrgs.br/cdrom/depestre/depestre.pdf.
Acesso em: 20jan. 2025.
DOBB, Maurice. A evolução do capitalismo. Tradução de Manuel do Rêgo Braga. Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1983.
FOÉ, Nkolo. A questão do negro no mundo moderno. Sankofa: Revista de História da
África e de Estudos da Diáspora Africana, ano IV, n. 8, dez. 2011.
HEGEL, G. W. F. A razão na história: introdução à filosofia da história universal. Tradução
de Artur Mourão. Lisboa: Edições 70, 1995.
GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Expressão Popular: Perseu Abramo,
2016a.
GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Expressão Popular: Perseu
Abramo, 2016b.
GRESPAN, Jorge. O negativo do capital: o conceito de crise na crítica de Marx à Economia
Política. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
KURTZ, Roberto. A substância do capital. Tradução de Lumir Nahodil e Boaventura
Antunes, 09/2005. Disponível em: http://www.obeco-online.org/rkurz203.htm. Acesso em
10 de fevereiro de 2025
269
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856

O MERCADO COMO FUNDAMENTO DA TEORIA RACISTA OU DO FETICHISMO DA EPIDERME

LOMBROSO, Cesare. O homem delinquente. Tradução de Sebastião José Roque. São
Paulo: Ícone, 2013.
MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue: história do pensamento racial. São Paulo,
Contexto, 2009.
MAMADOU BA. O racismo começa onde acaba a cultura. Parte II. Disponível em:
http://www.contramare.net/site/pt/does-racism-start-where-culture-ends-part-ii/. Acesso
em: 10 fev. 2025.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. O processo de produção do
capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. O processo de produção do
capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017a.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro III. O processo global da
produção capitalista. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2017b.
MAZZEO, Antonio Carlos. Estado e burguesia no Brasil (origens da autocracia burguesa).
São Paulo: Cortez, 1997.
WILLIAMS. Eric. Capitalismo e escravidão. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012.
Submetido em: 4/3/2025
Revisto em: 19/5/2025
Aceito em: 28/5/2025

270
Temporalis, Brasília (DF), ano 25, n. 49, p. 255-270, jan./jun. 2025.  ISSN 2238-1856