Reprodução social e saúde: contribuições de Breilh e Lukács ao pensamento social em saúde coletiva.

Autor: Diego de Oliveira Souza. Link: https://reben.com.br/article/reproducao-social-e-saude-contribuicoes-de-breilh-e-lukacs-ao-pensamento-social-em-saude-coletiva/

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                    REFLEXÃO

Reprodução social e saúde: contribuições de Breilh e Lukács
ao pensamento social em saúde coletiva
Social reproduction and health: contributions from Breilh and Lukács to social thinking in collective health
Reproducción social y salud: aportes de Breilh y Lukács al pensamiento social en salud colectiva
RESUMO

Diego de Oliveira SouzaI
ORCID: 0000-0002-1103-5474

I

Universidade Federal de Alagoas. Arapiraca, Alagoas, Brasil.

Como citar este artigo:
Souza DO. Social reproduction and health: contributions
from Breilh and Lukács to social thinking in collective health.
Rev Bras Enferm. 2025;78(3):e20240428.
https://doi.org/10.1590/0034-7167-2024-0428pt
Autor Correspondente:
Diego de Oliveira Souza
E-mail: diego.souza@arapiraca.ufal.br

EDITOR CHEFE: Antonio Jose de Almeida Filho
EDITOR ASSOCIADO: Márcia Ferreira
Submissão: 02-09-2024

Aprovação: 27-12-2024

Objetivo: Analisar a relação entre reprodução social e saúde apoiando-se nas teorias de
Jaime Breilh e Georg Lukács. Métodos: Trata-se de um estudo teórico-conceitual baseado
na análise imanente de obras desses autores. Resultados: Constatou-se que, para Breilh,
a reprodução social estabelece os marcos dimensionais para a determinação social da
saúde: geral, particular e individual. O autor ainda define os princípios essenciais para a
transformação da vida: sustentabilidade, soberania, solidariedade e segurança integral.
Por sua vez, Lukács enfatiza a mediação entre a reprodução dos indivíduos e da sociedade,
destacando a primazia do trabalho, que é produtor de valor de uso. Nessa relação, podem ser
interpostas mediações alienantes, determinando a degradação humana, incluindo impactos
na saúde. Considerações finais: Ambas as perspectivas oferecem elementos para repensar
as práticas de saúde. Apesar de suas diferenças, criticam a desigualdade estrutural do modo
de produção capitalista e suas repercussões na saúde.
Descritores: Condições Sociais; Estrutura Social; Pensamento; Saúde Coletiva; Saúde.

ABSTRACT

Objective: To analyze the relationship between social reproduction and health based on
the theories of Jaime Breilh and Georg Lukács. Methods: This is a theoretical-conceptual
study grounded in the immanent analysis of works by these authors. Results: It was found
that, for Breilh, social reproduction establishes the dimensional frameworks for the social
determination of health: general, particular, and individual. The author also defines essential
principles for transforming life: sustainability, sovereignty, solidarity, and integral security.
Lukács, in turn, emphasizes the mediation between the reproduction of individuals and
society, highlighting the primacy of labor, which produces use-value. Within this relationship,
alienating mediations may emerge, leading to human degradation, including health impacts.
Final considerations: Both perspectives offer elements for rethinking health practices.
Despite their differences, they critique the structural inequalities inherent in the capitalist
mode of production and their repercussions on health.
Descriptors: Changes, Social; Conditions, Social; Thinking; Public Health; Health.

RESUMEN

Objetivo: Analizar la relación entre reproducción social y salud a partir de las teorías de
Jaime Breilh y Georg Lukács. Métodos: Estudio teórico-conceptual fundamentado en el
análisis inmanente de las obras de estos autores. Resultados: Para Breilh, la reproducción
social establece los marcos dimensionales para la determinación social de la salud: general,
particular e individual. Él también define principios para transformar la vida: sostenibilidad,
soberanía, solidaridad y seguridad integral. Por su parte, Lukács enfatiza la mediación entre
la reproducción de los individuos y de la sociedad, destacando la primacía del trabajo, que
es productor de valor de uso. En esta relación, pueden interponerse mediaciones alienantes,
determinando la degradación humana, incluidos los impactos en la salud. Consideraciones
finales: Ambas perspectivas ofrecen elementos para repensar las prácticas de salud. A pesar
de sus diferencias, critican la desigualdad estructural del modo de producción capitalista y
sus repercusiones en la salud.
Descriptores: Condiciones Sociales; Estructura Social; Pensamiento; Salud Pública; Salud.

VERSÃO ON-LINE ISSN: 1984-0446

https://doi.org/10.1590/0034-7167-2024-0428pt

Rev Bras Enferm. 2025;78(3): e20240428

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Reprodução social e saúde: contribuições de Breilh e Lukács ao pensamento social em saúde coletiva
Souza DO.

INTRODUÇÃO
A relação entre reprodução social e saúde tem ocupado espaço relevante nos debates inaugurais da saúde coletiva desde os
anos 1970 e 1980. Longe de ser apenas um fenômeno biológico,
a saúde é determinada pela estrutura social, com uma dinâmica
que se dá nas possibilidades postas pela reprodução social. Esta
tem sido uma categoria teórica largamente estudada no campo
marxista, opondo-se especialmente às explicações fragmentárias
ou mecânicas sobre as formas de interação social. Desde Marx, engendra-se um entendimento de totalidade social multidimensional
e profundamente articulada à esfera da produção econômica, mas
que não se esgota nela; ao contrário, produz efeitos em todos os
complexos sociais, incluindo a saúde(1). Diante disso, este estudo
busca relacionar reprodução social e saúde apoiando-se nas teorias
de dois importantes pensadores: Jaime Breilh e Georg Lukács.
Jaime Breilh é um dos pioneiros da medicina social latino-americana, que depois veio a ser chamada “saúde coletiva”. Trata-se
de um campo que nasce do intercâmbio entre ciências da saúde
e ciências sociais, dialogando sobretudo com as perspectivas
marxistas. Esse campo se opõe ao velho paradigma causal da
saúde pública/epidemiologia clássica, conhecido como “monocausalismo” ou “multicausalismo”. Tal paradigma baseia-se na
visão probabilística de causas quantificáveis, na qual a dimensão
social aparece como algo externo ao processo saúde-doença,
sendo considerada passível de quantificação e fatorialização.
Contra essa forma de pensar, o epidemiologista equatoriano
desenvolveu uma abordagem que integra a saúde coletiva com a
crítica social. Sua teoria da determinação social da saúde enfatiza
como as condições de vida, moldadas pelas relações de produção,
afetam a saúde das populações. Breilh(1,2) propõe uma visão abrangente da dimensão social, entendendo-a como uma totalidade,
logo inclui a saúde.
Assim como outros intelectuais da medicina social latino-americana, Jaime Breilh trouxe contribuições para além da esfera
acadêmica, alcançando a esfera política, sobretudo entre os
anos de 1970 e 1980. À época, vários países latino-americanos
passavam por ditaduras militares, que eram contestadas por
movimentos políticos à esquerda. O movimento teórico-prático
de trazer autores como Marx para o debate da saúde representou
a construção de um desses espaços de resistência, com potencial
de abranger militantes de outros campos que não da saúde.
Já o húngaro Georg Lukács é uma referência do marxismo em
geral — para muitos, um dos maiores filósofos do século XX. Ele
não estudou a saúde diretamente, mas as suas reflexões sobre a
reprodução social podem contribuir para o debate da determinação social da saúde. Para Lukács(3), a reprodução social é um
processo dialético que envolve tanto a conservação quanto a
transformação das estruturas sociais, em uma profunda articulação
entre indivíduo e sociedade, fundada no processo de trabalho.
Lukács também teve atuação política. Foi um dos fundadores
do Partido Comunista Húngaro, participou do governo em 1919
e, inclusive, foi exilado após a derrota da Revolução Húngara. Sua
aproximação com o comunismo após a Revolução Russa de 1917
repercutiu em sua produção teórica, quando se afasta da perspectiva de Hegel e se direciona ao marxismo, com as obras de Lenin
desempenhando um papel relevante. Esse processo desemboca

na autocrítica que o húngaro faz de “História e Consciência de
Classe”. Desde então, veio a busca por pensar uma Ética marxista,
que pressupunha a elucidação da ontologia do ser social. Lukács
veio a morrer antes de concluir a pretendida análise sobre a Ética,
mas deixou um importante manuscrito sobre a ontologia do ser
social. Esse trabalho inclui um capítulo sobre reprodução social,
discussão indispensável à crítica ao positivismo, ao marxismo
vulgar e ao irracionalismo.
Considerando essa breve contextualização sobre os dois autores, convém investigar quais as convergências e divergências no
debate sobre a reprodução social realizado pelos dois autores e
as possibilidades de avanço nas interfaces com a saúde.
OBJETIVO
Analisar a relação entre reprodução social e saúde apoiando-se
nas teorias de Jaime Breilh e Georg Lukács.
MÉTODOS
Utiliza-se uma metodologia teórico-conceitual, baseada na
análise imanente de algumas obras desses autores, para explorar
suas contribuições e identificar pontos de convergência e divergência. A análise imanente é uma técnica de imersão no texto
filosoficamente ligada à ideia de imanência, ou seja, àquilo que
é interno ao processo e não o transcende. Esse tipo de análise
permite entender a estrutura interna do texto, as suas categorias
centrais, os nexos na articulação entre as categorias, a fim de decifrar o pensamento do autor da forma mais aproximada possível(4).
Embora cronologicamente a obra de Lukács anteceda a de
Breilh, optou-se por expor primeiro os argumentos do equatoriano,
por apresentar uma relação direta com a saúde. Didaticamente,
esse caminho potencializará as conexões possíveis entre a saúde
e as categorias lukacsianas.
De Breilh, utiliza-se o livro “Epidemiologia: economia, política
e saúde”(1), que traz boa parte do texto de sua dissertação de
mestrado defendida em 1976, marco para o debate da Saúde
Coletiva. Além disso, analisa-se um artigo(5) e o seu recente livro
publicado em Oxford(2), reconhecido em editorial da The Lancet
por seu caráter original e crítico(6). De Lukács, faz-se uso da obra
“Para uma ontologia do ser social”(3), volume II, com suporte
de comentadores especialistas(4,7,8), na qual ele faz uma análise
sistemática e exaustiva da categoria “reprodução social”.
RESULTADOS
Reprodução social e saúde: contribuições de Breilh
Ao postular a ideia de que a saúde é determinada socialmente,
Breilh(1) demonstrou como as contradições entre o desenvolvimento
das forças produtivas e as relações sociais de produção determinam
a pauperização, desigualdade social e, por conseguinte, a degradação da saúde humana. Ele se aproxima do debate marxiano e
demonstra como os elementos econômicos, embora nevrálgicos,
não eram suficientes para explicar a dinâmica da vida social em
todas as suas dimensões. É nesse ponto que ele evoca o debate
de totalidade e reprodução social, considerando a influência
de Marx e de outros autores do campo crítico contemporâneo.
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Diretamente inspirado por Echeverría(9), Breilh(1,2) define a
“reprodução social” como o processo no qual se dá a produção
e a distribuição da vida, abrangendo tanto a criação das mercadorias e serviços quanto as condições ideológicas, culturais
e políticas que sustentam esse processo. Nessa linha, Breilh(2)
entende a produção da vida como uma articulação entre produção, distribuição e consumo, dinamizadas em três dimensões
dialeticamente interdependentes:
a) Dimensão geral: Esta dimensão refere-se à lógica de acumulação capitalista e às políticas e culturas hegemônicas
que a sustentam e influenciam as outras duas dimensões.
b) Dimensão particular: Aqui se aborda a reprodução das classes
sociais, atravessadas por relações de gênero e etnoculturais.
Essas relações podem ser de cooperação ou de exploração
e dominação. A saúde nessa dimensão é afetada pelas
condições materiais e simbólicas em que se desenvolvem os
distintos grupos sociais, o que determina os modos de vida.
c) Dimensão individual: Esta dimensão inclui os indivíduos e
famílias, com seus estilos de vida e cotidiano. As condições
de classe, gênero e etnoculturais em que vivem esses indivíduos influenciam sua saúde de maneira direta e indireta,
afetando seu corpo, organismo, fenótipo, genótipo, psiquismo
e formas de espiritualidade.
Com efeito, a perspectiva de determinação social da saúde é
crucial para entender como são geradas as formas de corporificação da saúde nas diferentes dimensões da reprodução social.
Diferente do determinismo, que sugere uma causalidade linear
e direta, a determinação social advoga uma visão dialética e
complexa, na qual a saúde é vista como o resultado de interações
que operam em diferentes níveis da realidade social e natural.
Além das três dimensões, Breilh(2) sublinha a existência de uma
contradição na forma pela qual a reprodução social traduz-se em
vida humana, porquanto no capitalismo há uma oposição entre
indivíduo e sociedade. Com base nas contribuições de Samaja(10),
outro pioneiro da Saúde Coletiva, Breilh(2) destaca a natureza dialética das duas grandes tendências contraditórias da sociedade: por
um lado, a capacidade criativa existente no domínio particular, que
gera diversidade e reflexos na esfera genérica; e, por outro lado,
um movimento contrário por parte da sociedade em seu conjunto,
no sentido de perpetuar uma existência repleta de desigualdades,
recolocadas continuamente na reprodução social.
Considerando também as tendências contraditórias entre
indivíduos e sociedade, a articulação das dimensões da reprodução social conduz Breilh(2) a algumas constatações: a saúde não
pode ser reduzida à simples soma de fatores de risco individuais,
rechaçando a tendência fragmentante do positivismo. Esse argumento é uma crítica direta ao que se convencionou chamar
de “determinantes sociais da saúde”, que, à primeira vista, parece
se aproximar do que Breilh denominou “determinação social
da saúde”, mas, na verdade, representa o imperativo cartesiano
que separa os elementos sociais, para poder contabilizá-los e
associá-los. Diferentemente da determinação, os determinantes
não consideram as tendências contraditórias entre indivíduo e
sociedade nem a totalidade forjada na articulação entre produção, distribuição e consumo, com as suas múltiplas dimensões.

Em vez disso, eles fragmentam para depois tentar reconectar,
mecanicamente, os fragmentos.
No bojo da totalidade, Breilh(2) destaca a produção das iniquidades como um dos referenciais da determinação social da saúde.
Portanto, vislumbra um horizonte de equidade, perpassando a luta
contra as opressões de classe, gênero e etnia. A equidade em saúde
refere-se à complementaridade e suficiência econômica, justiça
distributiva, empoderamento democrático e não discriminação em
todas as suas formas. Contrariamente, a iniquidade é o resultado
da concentração de poder e recursos nas mãos de certas classes
e grupos sociais, o que leva às relações de submissão econômica,
social, política, cultural e epistêmico-científica. Essas desigualdades estruturais influenciam profundamente as oportunidades de
vida e saúde dos indivíduos e coletivos, obstando o bem-viver1 (2).
A construção da equidade e do bem-viver, livre das já citadas
opressões, perpassam quatro princípios, denominados os “4 S”
da vida:
1. Sustentabilidade – Refere-se à capacidade de manter e
reproduzir a vida humana e natural de maneira duradoura,
assegurando as condições materiais e ecológicas necessárias
para a saúde.
2. Soberania – Implica a autonomia na condução da vida e o
controle sobre os recursos indispensáveis, permitindo às
comunidades e nações decidir sobre seu próprio desenvolvimento e bem-estar.
3. Solidariedade – Este princípio advoga uma civilização
equitativa e uma lógica protetora para o bem comum; promove a organização popular e a fraternidade psicológica e
espiritual, essenciais para a coesão social e saúde coletiva.
4. Segurança integral – Refere-se à criação de espaços e
processos protetores que assegurem a saúde humana e
ecológica, incluindo tanto a prevenção de riscos quanto
a promoção de condições de vida saudáveis2.
Por fim, para Breilh(2), a abordagem da reprodução social como
eixo movente da determinação social da saúde tem profundas
implicações para a pesquisa e prática no campo da saúde coletiva. Ao redefinir a saúde como um fenômeno socionatural
complexo, promove-se uma visão mais integral que considera
a indissociabilidade entre a realidade social e a natural.
1

2

O bem-viver é um conceito baseado na filosofia de povos originários
andinos. O bem-viver transcende a ideia de bem-estar individual para
incluir uma harmonia coletiva com a natureza e entre os seres humanos,
ressaltando a importância de uma vida digna e equilibrada em todas as
suas dimensões. Pressupõe integração com a natureza, equidade e justiça,
autonomia e participação comunitária, soberania cultural e identitária e
relações econômicas baseadas na solidariedade(1). Esse conceito é a base
para o que Breilh denominou de “4 S”.
A ideia de bem-viver projeta uma sociedade estruturada a partir dos “4 S”,
o que demarca uma de suas diferenças com a teoria social de Marx. Do
ponto de vista marxista, a principal crítica consiste no fato de que os “4 S”
se sobrepõem ao modo de produção (articulado à reprodução social) como
base estruturante da sociedade. Essa condição acaba por deslocar o papel
ontologicamente fundante do trabalho para com a sociedade e, consequentemente, pode dificultar o entendimento da necessidade de superação da
contradição entre o desenvolvimento dos meios de produção e as relações
sociais de produção. Portanto, o problema não reside no desenvolvimento
dos meios de produção em si, mas na sua ocorrência dentro de uma relação
antagônica entre capital e trabalho.
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Além disso, essa abordagem sugere a necessidade de políticas e práticas que tratem das causas estruturais da iniquidade
em saúde. Para o equatoriano, esse tipo de intervenção deve
pautar-se nos “4 S”, o que aponta para uma redistribuição de
recursos, promoção da justiça social e criação de condições que
permitam a autonomia e o empoderamento das comunidades.
Só assim, segundo Breilh(2), será possível avançar para um modelo
de desenvolvimento realmente sustentável e equitativo, que
promova a saúde de maneira integral.
Possibilidades no debate com Lukács
É preciso esclarecer que a ontologia lukacsiana nada tem a
ver com a ontologia antiga ou medieval, nas quais imperava a
prática especulativa sobre a essência de um mundo que era entendido como existência objetiva, mas “imune” à transformação
operada pelos sujeitos. Tampouco se equivale a outras ontologias
contemporâneas, de cunho existencialista, as quais reduzem a
essência dos processos à subjetividade do sujeito, que só existe
na experiência em si.
Para além disso, Lukács(3) defende uma orgânica articulação
entre objetividade e subjetividade, embora o momento predominante seja o da objetividade. Em outras palavras, o mundo
existe objetivamente, independentemente do grau de consciência
que os sujeitos tenham sobre isso. Porém, a produção desses
processos está totalmente consignada à ação dos sujeitos, na
práxis, o que abre um horizonte de transformação da história a
depender das condições objetivas e da tomada de consciência
sobre os processos. Portanto, não se trata de falar de uma essência
dos objetos como um núcleo imutável, mas de entender que a
essência do ser social é radicalmente histórica, produzida pelos
seres humanos, embora não ao seu bel prazer.
Nessa concatenação, a categoria “reprodução social” é decisiva
para entender a processualidade do ser social. Lukács(3) afirma
que a reprodução social é um processo bipolar. Os dois polos
inseparáveis são a reprodução dos indivíduos (ontogenética) e
a reprodução da sociedade como um todo (filogenética). Esse
processo revela a interdependência entre o desenvolvimento
individual e o desenvolvimento societal, sempre mediatizado.
Convém fazer a ressalva de que a articulação entre reprodução
do indivíduo e reprodução da espécie também está presente no
reino orgânico, pois a reprodução ontogenética de cada organismo
individual contribui para a continuidade da espécie, mas, nesse
caso, sem grandes mediações ou transformações qualitativas
entre tais processos. Na esfera social, essa relação torna-se mais
complexa. Lukács(3) argumenta que a reprodução biológica dos
seres humanos, embora essencial, é apenas uma parte do processo
maior de reprodução social. A reprodução ontogenética humana
não se limita à mera continuação biológica; ela envolve também
a criação de condições sociais e materiais que sustentam a vida
humana e permitem seu desenvolvimento contínuo.
Constata-se que, para Lukács(3), a reprodução do ser inorgânico
é um constante transformar‑se em outro, e a reprodução do ser
natural (a esfera biológica) é sempre uma reposição do mesmo
(dar origem a um novo exemplar da espécie). Porém, a reprodução
social é outra coisa: é sempre a criação e recriação do novo, ou
seja, a transformação concomitante do indivíduo e da sociedade.

Assim, a reprodução social é essencialmente um processo de
mediação. Os seres humanos, mediante suas atividades práticas,
interagem com a natureza e com os outros seres humanos, criando
e recriando as condições de sua existência. Esse processo é dialético, pois envolve tanto a conservação quanto a transformação
das estruturas sociais. Portanto, a reprodução social não é apenas
uma repetição mecânica das condições existentes, mas também
um processo dinâmico que inclui a possibilidade de mudança e
desenvolvimento(7,8).
Segundo Andrade(8), a economia é um componente crucial dessa
dinâmica, entendida enquanto esfera produtiva a partir da qual
os seres humanos produzem a sociedade por meio do trabalho. A
dimensão econômica articula a reprodução do gênero humano e
a reprodução do indivíduo singular, estabelecendo as condições
materiais para a existência humana. Com efeito, a interação objetiva dentro do processo reprodutivo social promove o desenvolvimento das forças produtivas e das capacidades humanas. Isso
porque o resultado do processo de trabalho ultrapassa o valor de
uso, já que transforma o sujeito, cria novas possibilidades e gera
novas necessidades, enriquecendo o ser social. No entanto, essa
interação também pode levar à alienação e à degradação do ser
humano, dependendo das condições sociais concretas: a rigor,
isso ocorre quando o trabalho baseia-se na exploração e obsta a
plena conexão dos indivíduos com o gênero humano.
O abismo criado entre os indivíduos e o gênero humano expressa
o caráter desumanizador de uma forma particular de trabalho, embora, contraditoriamente, qualquer forma de trabalho mantenha‑se
como a atividade fundante do ser social, logo, responsável pela humanização (tornar-se humano). Essa contradição efetiva-se quando a
produção de valores de uso fica subordinada à produção de valores
de troca, necessários para o processo de valorização de capital e,
consequentemente, acumulação de capital. Assim, as mercadorias,
produto da mão humana, passam a reger as relações sociais.
Considerando essa abordagem, um dos conceitos centrais na
análise de Lukács é a prioridade ontológica do valor de uso sobre
o valor de troca. Ele argumenta que o valor de uso, o qual emerge
da satisfação das necessidades humanas por meio do trabalho
(condição permanente), tem primazia ontológica sobre o valor de
troca, algo específico de uma fase histórica. Essa primazia reflete
a base biológica da reprodução humana, ou seja, a dimensão
na qual os produtos de trabalho revelam sua capacidade de
satisfazer as necessidades humanas básicas — o que é anterior
e fundamental para todas as outras formas de atividade humana.
Portanto, a reprodução biológica da vida humana forma a base
ontológica de todas as outras categorias do ser social, ratificando
o entendimento de indissociabilidade entre elas(8).
Nessa argumentação, ressurge a influência das categorias
hegelianas da universalidade, particularidade e singularidade,
embora reformuladas com base no materialismo histórico-dialético. Isso significa que a reprodução social representa a orgânica
articulação entre a dimensão singular da reprodução ontogenética
com a dimensão universal da reprodução filogenética. Porém,
essa articulação não é direta: ela pressupõe as particularidades
que fazem a mediação da relação.
Como já destacado, tal relação entre indivíduo e sociedade
pode consubstanciar-se de forma que predomine a desumanização. A particularidade da alienação no capitalismo, segundo
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Lessa(7), ocorre em dois sentidos: primeiro, as necessidades humanas tornam-se cada vez menos relevantes na produção social;
segundo, a produção passa a ser caracterizada por desperdício e
destruição, evidenciando a desumanidade do capital. Esse quadro
leva a uma vida social marcada por profundas desigualdades e
incertezas, em que o desemprego e a precariedade tornam-se
questões centrais. Dessa maneira, forjam-se as bases e as dinâmicas sociais degradantes para a saúde, seja individualmente,
seja coletivamente.
Percebe-se que Lessa(7), após Lukács, vê a superação do capitalismo como uma condição necessária para a verdadeira emancipação
humana. O autor argumenta que, enquanto a produção for orientada pela lógica do capital, a humanidade permanecerá alienada
e subordinada a uma existência marcada pela mercantilização das
relações sociais. Contudo, se a realidade é radicalmente histórica,
os seres humanos, por sua ação consciente e em determinadas
condições objetivas, podem recriar a realidade social. O ponto
de partida para esse processo está naquela dimensão fundante,
o complexo do trabalho, mas que só opera devido às mediações
imprescindíveis para isso na reprodução social. A crítica à reprodução
social capitalista, portanto, não é apenas uma análise econômica,
mas também uma crítica radical às formas de vida e às relações
humanas que emergem desse sistema(3,7,8).
Constatam-se convergências no entendimento de reprodução
social de Breilh e Lukács. Um ponto comum é entender a reprodução social nas suas várias dimensões, por meio da dialética
do universal-particular-singular, ainda que Breilh apresente uma
pequena diferença no uso do vocabulário.
Esses dois autores também divergem, sobretudo nas ênfases
dadas aos processos analisados e na estratégia de enfrentamento.
Breilh foi adequando a sua argumentação ao longo dos anos, pois,
inicialmente (década de 1970), ele enfatizava o debate sobre a
desigualdade econômica e centralidade do trabalho para decifrar
e enfrentar a problemática no marco do capitalismo. Ao longo
dos anos, essa centralidade foi dividindo espaço com outras
desigualdades e opressões, assim como também os pilares (princípios da vida) da determinação social passaram a ser os “4 S”(2,5).
Para Lukács(3), as demais desigualdades e opressões são essenciais.
Porém, ele as entende sob a perspectiva das funções que exercem
perante o modo de produção e, assim, de como intermedeiam a
reprodução social. A centralidade está no trabalho, atividade fundante do ser social, da qual se origina a contradição fundamental
da sociedade. A reprodução social é entendida pela articulação
de seus dois polos (ontogenético e filogenético), tornada possível
pelo trabalho. Ela pode ser tanto mais rica quanto mais mediações
humanizadoras existam; e tanto mais degradante (incluindo a
degradação da saúde) quanto mais mediações alienantes se
interponham entre indivíduo e gênero humano.
Assim, a teoria de Lukács pode contribuir com o debate sobre
a relação entre reprodução social e saúde, sobretudo porque

demonstra a reprodução biológica como pressuposto da reprodução social. Essa condição se traduz na primazia do valor de uso,
categoria marxiana que explica o caráter de os produtos do trabalho
satisfazerem as necessidades humanas. Ambas as reproduções
(biológica e social) são prejudicadas no capitalismo, já que o valor
de uso fica subordinado ao valor de troca (logo, as necessidades
humanas ficam subordinadas às necessidades do mercado). Assim,
a reprodução social passa a ser constituída ao redor do pauperismo,
de um lado; e da acumulação de capital, do outro.
O trabalho não pode ser uma categoria ocultada por quaisquer
mediações sociais, e sim deve ser compreendido como a chave
heurística para entendê-las. De modo algum, tal fato diminui a
importância dessas mediações, visto que Lukács(3) atribui a elas
a capacidade de enriquecer a reprodução social. Para além disso,
a teoria lukacsiana abre a possibilidade de entender e transformar essas mediações em elementos realmente humanizadores,
capazes de tecer conexões autênticas entre indivíduos e gênero
humano, o que, estrategicamente, perpassa a luta de classe e a
superação do sistema do capital.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise das teorias de Jaime Breilh e Georg Lukács acerca da
reprodução social revela a profundidade e complexidade desse
tema. Breilh desenvolve uma abordagem multifacetada, integrando
dimensões gerais, particulares e individuais da reprodução social.
Ele identifica os “4 S” como pilares fundamentais para uma vida
saudável, evocando políticas que abordem as causas estruturais
da iniquidade em saúde. Por outro lado, Lukács oferece uma
visão dialética da reprodução social, focando na mediação entre
o desenvolvimento individual e societal. Ele argumenta que a
reprodução social não é apenas um processo de repetição, mas
também um campo dinâmico que pode levar tanto à alienação
quanto à emancipação, dependendo das condições sociais
concretas e da tomada de consciência da humanidade sobre os
caminhos de sua história.
Breilh consegue integrar perspectivas pluralmente inseridas no
campo crítico, incluindo o marxismo e a filosofia andina. Já Lukács
se situa no âmbito mais ortodoxo (no sentido de interpretação
precisa) do marxismo, contribuindo para a crítica aos marxismos
que não alcançaram o âmago do que seja a reprodução social.
Ambas as perspectivas oferecem elementos para repensar a saúde (e as práticas de saúde). Apesar de suas diferenças, criticam a
desigualdade estrutural do modo de produção capitalista e suas
repercussões na saúde.
CONTRIBUIÇÕES
Souza DO é o único autor do artigo, tendo trabalhado no texto
da concepção à revisão final.

REFERÊNCIAS
1.

Breilh J. Epidemiologia: economia, política e saúde. São Paulo: Unesp; 1991.

2.

Breilh J. Critical epidemiology and the people’s health. Nova York: Oxford University Press; 2021.
Rev Bras Enferm. 2025;78(3): e20240428

5 de 6

Reprodução social e saúde: contribuições de Breilh e Lukács ao pensamento social em saúde coletiva
Souza DO.

3.

Lukács G. Para uma ontologia do ser social II. São Paulo: Boitempo; 2013.

4.

Lessa S. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. São Paulo: Cortez Editora; 2011.

5.

Breilh J. La determinación social de la salud como herramienta de transformación hacia una nueva salud pública (salud colectiva). Rev Fac Nac
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