Apontamentos sobre a conjuntura mundial: a “tempestade” da crise do capital.
Autor: Albani de Barros (UFPB). Link: https://www.scielo.br/j/sssoc/a/sr6RmQV8gjcnt4RbGmnb5Vk/?format=pdf&lang=pt
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ARTIGO DE TEMA LIVRE
http://doi.org/10.1590/0101-6628.433
Apontamentos sobre
a conjuntura mundial:
a “tempestade” da crise do capital
Notes on the global conjuncture:
the “storm” of the capital crisis
Albani de Barrosa
https://orcid.org/0000-0003-2923-7557
Resumo: Este artigo analisa a conjuntura mundial a partir do aprofundamento da
crise do capital. Por meio de uma revisão
bibliográfica, o texto aborda temas como a
crise do capitalismo, políticas neoliberais,
reestruturação produtiva, intensificação dos
conflitos bélicos e a expansão da financeirização, com destaque para o crescimento
do capital fictício e o aumento dos níveis de
endividamento global. Também se examina
o confronto entre Estados Unidos e China,
explorando como essa rivalidade se insere
e se intensifica no quadro de crises e transformações do sistema capitalista.
Palavras-chave: Crise estrutural do capital.
Conjuntura mundial. Neoliberalismo.
Medidas contra-arrestantes.
a
Abstract: This article examines the
contemporary global conjuncture in light
of the deepening crisis of capital. Through a
comprehensive literature review, the study
is organized around the following themes:
the crisis of capital, neoliberal policies,
productive restructuring, intensification
of armed conflicts, and the expansion of
financialization. It also addresses the
growth of fictitious capital and the rising
levels of global indebtedness. Finally, the
text explores the confrontation between the
United States and China.
Keywords: Structural crisis of capital. Global
conjuncture. Neoliberalism. Counter-tendential measures.
Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa/PB, Brasil.
Recebido: 11/11/2024 Aprovado: 19/12/2024
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Barros, A.
Introdução
O
presente artigo busca apresentar um panorama sobre a conjuntura mundial, tendo por fio condutor a análise dos impactos da
crise estrutural do capital e o aprofundamento das contradições
originárias do processo de acumulação, o que provoca respostas do capital,
com a adoção de medidas contra-arrestantes. Os apontamentos contidos
neste texto são fruto de uma análise sobre a conjuntura mundial, desenvolvida a partir de uma revisão bibliográfica abrangente, sendo a parte
inicial de um projeto de pesquisa que estamos desenvolvendo sobre a
tendência de queda nas taxas de lucro, suas contratendências e ação do
Estado. Como parte dos procedimentos metodológicos adotados, foram
utilizados pesquisa em livros, artigos acadêmicos e fontes documentais,
com o objetivo de compreender as dinâmicas sociais, econômicas e políticas que moldam o cenário global contemporâneo.
O período de recorte temporal dessa análise situa-se a partir das
transformações econômicas e políticas, com base na chamada crise estrutural do capital, o qual Mészáros (2002) assinala seu marco inicial em
meados da década de 1970. Contudo, para melhor delineamento deste
estudo, nossa ênfase situa-se nos desdobramentos da conjuntura mundial
pós-crise de 2008. O contato com documentos publicados pelo BIS (Bank
for International Settlements — Banco de Compensações Internacionais)
e da organização Trading Economics (Economia de Negócios e Comércio)
permitiu o acesso a dados e análises sobre a situação e a tendência de
alguns aspectos da economia mundial, incluindo as dívidas e PIB. Já
do ponto de vista da abordagem conceitual utilizada, nos valemos de
uma base que segue a tradição de Marx da crítica da economia política,
incorporando autores como Mészáros e Harvey.
Este estudo baseia-se no exame de contradições fundamentais da
dinâmica capitalista em sua fase atual, considerando tanto seus impactos
estruturais quanto as tendências emergentes. Nesse contexto, apresentamos alguns apontamentos que, embora tratados de forma sucinta,
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julgamos essenciais para uma análise de conjuntura sob a perspectiva
da crítica radical que orienta este trabalho.
Diante do desafio de analisar um tema tão amplo e complexo quanto a conjuntura mundial contemporânea, situada no contexto da crise
estrutural que a permeia, pareceu-nos pertinente recorrer à magistral
alegoria presente no enredo da peça A tempestade, de Shakespeare. No
entanto, essa metáfora, que relaciona a crise do capital à tempestade de
nossos dias, será explicada nas considerações finais.
Os argumentos tratados ao longo do texto versam sobre os seguintes
temas: as características gerais da crise estrutural; a crise e seus desdobramentos para a conjuntura mundial atual; as cinco respostas que o
capital tem executado para enfrentar a crise, incluindo a aplicação das
políticas neoliberais, a adoção da reestruturação produtiva, o incentivo à
continuidade de guerras, a hipertrofia da esfera financeira e, por último,
a elevação de todos esses fatores a um novo patamar qualitativo após
a crise de 2008; o apontamento seguinte aborda a ampliação do capital
fictício, das dívidas e os riscos de uma nova crise; e, no derradeiro apontamento, tratamos das características e das contradições do embate entre
os Estados Unidos e a China.
As ações empreendidas nas últimas décadas, sob a pressão e as
limitações impostas por uma crise contínua, têm aprofundado as contradições estruturais entre capital e trabalho. As transformações econômicas e políticas resultantes da chamada reestruturação produtiva,
aliadas à aplicação do receituário neoliberal, criaram condições propícias
para a intensificação da desvalorização da força de trabalho, agravando,
simultaneamente, as condições de vida dos trabalhadores.
Como o capital apresenta uma incapacidade estrutural de abordar
as causas fundamentais dos problemas que seu metabolismo gera, opera
constantemente um divórcio entre os efeitos e sua gênese. Dessa forma,
todos os distúrbios do sistema são tratados como meros problemas temporários, jamais enfrentados em sua essência, independentemente das
graves implicações que possam surgir em longo prazo (Mészáros, 2002).
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Barros, A.
Incapaz de suprimir sua própria lógica sem comprometer sua existência, o capital, diante de uma crise estrutural que se aprofunda, recorre
à alternativa de destruir tudo o que é vivo, incluindo o ser humano e as
bases materiais que sustentam sua existência.
1. Sobre a crise do capital
As crises estão na gênese do capitalismo; não é possível a existência
do modo de produção capitalista sem que este esteja constantemente
acompanhado por suas crises econômicas. Elas são, essencialmente, o
resultado da superprodução de capital, da combinação entre superprodução de mercadorias e superacumulação, sendo o momento predominante
o da superacumulação. O movimento de reprodução da acumulação gera
uma crescente massa de mais-valia produzida, que necessita ser realizada, metamorfoseada novamente sob a forma de capital monetário e
que precisará retornar ao ciclo de acumulação, visto que “a finalidade
determinante da produção capitalista é a valorização constante de valor
adiantado” (Marx, 2014, p. 235).
À medida que o capital produz contradições, que são resultado de seu
metabolismo interno, seus movimentos mais amplos também apresentam
um ordenamento de características. Na identificação dos ciclos econômicos,
Marx (1996, p. 263) expõe a seguinte ordem: “vitalidade média, produção a
todo vapor, crise e estagnação”. Nessa ordem exposta pelo autor de O capital, é possível perceber que a produção de mercadorias e a acumulação de
capital, levadas à sua máxima intensidade, são exatamente o elemento impulsionador para o ciclo seguinte: o da crise. De forma sintética: a produção
e a acumulação capitalistas, aceleradas à sua máxima velocidade possível,
não promovem a reprodução de seus períodos de ascensão a um patamar
superior de virtuosidade. Muito pelo contrário, seu “bom” funcionamento
é o que leva ao seu próprio colapso. À proporção que cresce essa massa de
capital valorizado a cada ciclo, a crise se expressa quando ocorre uma interrupção ou são postos severos obstáculos para o processo de valorização.
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Se o movimento que leva às crises é o resultado do processo de
acumulação capitalista, a tendência à queda da média das taxas de lucro
também está sob a mesma gênese. Marx (1996) observa que, no processo
de acumulação capitalista, a expansão do capital se realiza por meio da
concentração e da centralização de capitais, o que conduz continuamente
a um aumento do componente constante e a uma diminuição do capital
variável. O problema é que essa lógica provoca novas contradições para o
conjunto da economia. No longo prazo, essa dinâmica acaba por estimular
uma tendência que é intrínseca ao processo de acumulação: a queda na
taxa média de lucratividade.
O aumento da composição orgânica do capital e a maior utilização do
capital constante em relação ao componente variável são os elementos
que provocam a tendência de queda nas taxas de lucro (Marx, 2017).
Mas, se existe uma tendência de queda na taxa média de lucratividade,
também é verdade que os capitalistas não ficam imóveis diante disso
e buscam mecanismos para seu permanente enfrentamento. É amplo o
leque de possibilidades de que os capitalistas dispõem para conter essa
tendência, e, tal qual o próprio capitalismo, essas possibilidades são
constantemente renovadas ou até mesmo ampliadas.
Nesse ponto, é importante destacar que a existência das contratendências não é simplesmente uma resposta post festum à tendência de queda
nas taxas de lucro. Trata-se de um movimento que a acompanha de forma
paralela. Os dois movimentos, a tendência de queda e as estratégias para o
seu enfrentamento, são partes constitutivas e medulares das engrenagens
da acumulação capitalista, ligadas e indissociáveis ao seu metabolismo.
No volume três de O Capital, capítulo XIV, Marx (2017) analisa quais
são as estratégias que o capital executa como ações contra-arrestantes,
elencando seis possibilidades para aquela realidade histórica. São elas:
aumento do grau de exploração do trabalho, compressão do salário
abaixo de seu valor, barateamento dos elementos do capital constante, a
superpopulação relativa, o comércio exterior e, por último, o aumento do
capital acionário (Marx, 2017). Em razão das atuais condições históricas
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do capitalismo, é possível considerar o acréscimo de elementos como o
ímpeto para as guerras e a obsolescência programada.
Nossa hipótese, a partir da análise das condições históricas em que
o capitalismo tem se desenvolvido desde as três últimas décadas do século XX, sob o impacto da crise estrutural do capital (Mészáros, 2002),
é de que o movimento de contratendência está em curso acelerado no
contexto histórico da crise do capital. Em outros termos, as ações contra-arrestantes, que são um processo imanente da acumulação de capital,
encontram-se neste momento em curso acelerado, potencializadas por
uma crise de caráter contínuo.
2. A crise e seus desdobramentos para a conjuntura atual
A mais ampla e profunda análise sobre os determinantes do capitalismo contemporâneo e sua crise foi realizada por Mészáros (2002). O
autor indica que estamos vivenciando os efeitos de uma crise estrutural
do capital. Para ele, o caráter de continuidade depressiva, com espasmos
pífios de crescimento, e, principalmente, as consequências sociais que
a humanidade enfrenta em virtude da ativação dos limites absolutos
do capital evidenciam que estamos diante de uma crise “nunca dantes
experimentada e numa escala incomparável” (Mészáros, 2009, p. 75). O
período de crises cíclicas teria sido superado por uma nova configuração
de colapso, agora estrutural, que difere dos ciclos de crise anteriores
devido a quatro elementos:
[...] seu caráter é universal, em lugar de restrito a uma esfera particular
[...]. Seu alcance é verdadeiramente global [...] em lugar de limitado a um
conjunto particular de países [...]. Sua escala de tempo é extensa, contínua
e permanente, em lugar de limitada e cíclica, como foram todas as crises
anteriores do capital; em contraste com as erupções e os colapsos mais
espetaculares e dramáticos do passado, seu modo de se desdobrar poderia
ser chamado de rastejante [...] (Mészáros, 2002, p. 796, grifos do autor).
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Mészáros (2002) assevera que a crise estrutural atinge a totalidade
dos complexos sociais, seus subcomplexos e demais esferas articuladas
ao metabolismo da sociedade capitalista. Em suma, trata-se de uma
crise que ultrapassa a esfera econômica, com fortes reflexos em várias
esferas da vida social. Com uma fina ironia, Mészáros argumenta que
aqueles que entenderem essa afirmação como demasiadamente dramática deveriam atentamente observar ao seu redor e indagar: “É possível
encontrar qualquer esfera de atividade ou qualquer conjunto de relações
humanas não afetadas pela crise?” (Mészáros, 2002, p. 800). Entre as várias esferas da vida que se encontram afetadas pela crise, inegavelmente
os trabalhadores experimentam uma das mais graves consequências.
A história revela que a emergência de uma crise impõe entraves
para o processo de reprodução ampliada de capital. Porém, também é
um componente que realimenta o sistema e impulsiona a busca de novas estratégias para a extração contínua de mais-valor. Dessa maneira,
é uma marca do capital a capacidade de adequação de seu fluxo no
enfrentamento dos obstáculos que historicamente são postos por sua
própria dinâmica. Esse aspecto possui uma íntima relação com o modelo
e a configuração em que a riqueza é acumulada, sob a forma de capital,
com a mobilidade e a fluidez que lhes são inerentes.
De acordo com Mészáros (2002), ao longo do desenvolvimento do
processo de reprodução do capital, suas dimensões essenciais — produção, consumo e circulação/realização — têm conseguido, com relativo
sucesso, expandir-se com essas três unidades agindo num movimento
de reciprocidade, “garantindo também a motivação interna necessária
para a respectiva reprodução dinâmica em uma escala cada vez mais
ampliada” (Mészáros, 2014, p. 28).
Enquanto a reciprocidade dessas três unidades foi mantida com razoável êxito, os limites imediatos puderam ser realocados ou postergados,
até mesmo utilizados como “alavancas para o crescimento exponencial
do aparentemente ilimitado poder autopropulsivo do capital” (Mészáros,
2014, p. 28). Ocorre que ao entrarmos na crise estrutural, essa tripla
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dimensão interna, cuja funcionalidade esteve sempre orientada a proporcionar a expansão do capital, passou a apresentar disfunções cada
vez mais severas.
Conforme Mészáros (2002), com a crise estrutural ocorreu uma
alteração substancial na profundidade e na gravidade nos colapsos
econômicos historicamente vivenciados pelo capital. O autor rechaça
a possibilidade de uma recuperação significativa e do retorno de uma
longa fase de crescimento, tal qual já ocorrera antes. Após os dramáticos
anos de depressão iniciados com a crise de 1929, a economia capitalista
alcançou, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, vigorosos
índices de crescimento.
O grave para o enfrentamento do atual quadro de crise estrutural
é que as fraturas do sistema se tornaram mais desabridas. Isso implica
ter de enfrentar e ultrapassar um conjunto extenso de contradições,
impregnadas em inúmeros complexos sociais e que atingem diretamente
o núcleo da produção capitalista. Porém, mesmo diante desse quadro, o
processo ampliado de reprodução do capital não é sustado. A gravidade
quanto à manutenção desse processo é que os mecanismos utilizados
para a ampliação da acumulação, crescentemente, exigem um custo
social maior para a humanidade e, em especial, para os trabalhadores.
3. Cinco respostas do capital para o enfrentamento da crise
É quase um consenso que o mundo está já há muito tempo numa
crise persistente, renitente, com caráter de continuidade. Como um quadro
ilustrativo desse cenário, é suficiente recordar a sequência desses colapsos recentes: crise do petróleo, em 1973, a crise de superprodução, entre
1974/1975, a “segunda-feira negra”, em 1987, crise do peso mexicano, em
1994, crise dos Tigres Asiáticos, em 1997, crise do rublo, em 1998, crise
das pontocom, em 2000, crise após a queda das Torres Gêmeas, em 2001,
crise argentina, entre 2001/2002, a grande depressão de 2008, crise das
dívidas europeias, entre 2009/2010, crise da pandemia, em 2020.
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Ao longo desse percurso, as respostas do capital são na tentativa de
reacomodar paliativamente as contradições geradas, uma vez que seus graves problemas não podem ser radicalmente eliminados pelos instrumentos
de regulação burgueses. Desconsiderando uma ordem cronológica ou de
relevância, é possível sintetizar em cinco grandes respostas que o capital
tem demandado para enfrentar os impactos e as consequências da crise.
A primeira resposta foi a execução das políticas neoliberais, sob o
lastro da herança teórica de Hayek e de Friedman, a partir do final da
década de 1970. Sua materialização ocorreu por meio de processos de
privatização, corte de gastos sociais, aumento de juros, diminuição de
impostos sobre os mais ricos, impulso ao desemprego e ataque a organizações políticas dos trabalhadores.
A segunda resposta foi a chamada reestruturação produtiva, que,
do ponto de vista conceitual, não se limitou a um período específico, mas
constituiu um movimento processual que ainda permanece em curso. No
âmbito das relações de produção, isso ganhou concretude com a adoção do
modelo toyotista, a introdução de novos aparatos tecnológicos informacionais e novas formas de controle e gestão da força de trabalho, resultando
na elevação dos níveis de sobretrabalho e no crescimento da precarização.
A terceira resposta foi a intensificação da hipertrofia da esfera
financeira, com um massivo deslocamento de capitais para serem valorizados sob a lógica do capital fictício. Esse movimento representou
uma tentativa de acelerar a rotação do capital, à medida que o capital
fictício busca antecipar a apropriação de valores que possivelmente serão
realizados no futuro. O problema é que, ao ampliar a massa de capitais
que precisam ser valorizados, novas contradições são potencializadas.
A quarta resposta tem sido o constante acionamento dos tambores
da guerra. O volumoso dispêndio de riqueza no desenvolvimento de instrumentos que ferem, mutilam e matam tem sido algo indissociável do
capitalismo monopolista e de sua face imperialista. Desde 2009, observa-se um contínuo crescimento dos gastos bélicos, atingindo, em 2023,
o patamar recorde de 2,4 trilhões de dólares (Sipri, 2024). Já o número
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estimado de vítimas relacionadas a conflitos no mundo aumentou de
153.100, em 2022, para 170.700, em 2023, alcançando o nível mais alto
desde 2019 (Sipri, 2024). Ademais, diante da incapacidade da Organização
das Nações Unidas (ONU) de interferir nos conflitos em curso, como na
Ucrânia e na Palestina, o mundo se encontra sob domínio dos interesses dos monopólios bélicos e dos apetites expansionistas imperialistas.
O resultado é um processo de armamento descontrolado, bem como o
recorrente descumprimento de acordos de controle de armas.
A quinta resposta surgiu após a crise de 2008 e não se trata de uma
ação específica ou de um movimento inédito até aquele momento. A partir
de então, o que se observa é o aprofundamento das quatro dimensões
anteriormente citadas, agora elevadas a patamares superiores, expressando uma nova condição qualitativa. Como expressões visíveis desse
movimento, destacam-se o acelerado crescimento das dívidas públicas
e o ataque, em escala mundial, às normas protetivas do trabalho, por
meio de mais de 110 contrarreformas trabalhistas em diferentes países
(Adascalitei; Morano, 2016).
Desde 2008, um conjunto de contrarreformas trabalhistas se espalhou mundialmente, intensificando a ofensiva contra os trabalhadores
iniciada nos anos 1980, agora sob o impulso da expansão da uberização
e da retirada de normativas do polo protetivo do trabalho. Ao analisar as
contrarreformas em mais de 110 países entre 2008 e 2014, os pesquisadores Adascalitei e Morano (2016) publicaram, por meio da Organização
Internacional do Trabalho, o relatório “Drivers and effects of labour
market reforms: evidence from a novel policy compendium”. Ao examinar
642 alterações nas legislações trabalhistas pesquisadas, os resultados
identificados por Adascalitei e Morano (2016) demonstraram que, embora
essas mudanças tivessem o argumento de que elas seriam capazes de
fomentar o emprego por meio da redução do custo da força de trabalho,
o que na prática ocorreu foi que acabaram provocando um aumento do
subemprego, da informalidade e, em diversos casos, um acréscimo nas
taxas de desemprego.
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4. Capital fictício, dívidas e a sombra de uma nova crise
As formas parasitárias de apropriação de riqueza que permeiam
os ganhos da esfera financeira, enquanto possibilitam lucros elevados
com o apoio dos Estados nacionais, também obrigam a esfera produtiva
a adotar níveis de exploração mais intensos. Os circuitos de valorização
do capital precisam garantir lucros para diversas frações burguesas,
isoladas ou em “orgia” com outros capitais dispersos globalmente. Dessa forma, é necessário atender simultaneamente às demandas de lucro
dos setores de produção, serviços e comércio, além de saciar o apetite
crescente por lucros da esfera rentista, que opera por meio de circuitos
globais de valorização.
O atual panorama da quantidade de capital fictício a ser valorizado
impressiona pelo seu tamanho e pelas implicações que isso provoca em
termos de riscos de um colapso econômico tectônico. Conforme dados do
Banco de Compensações Internacionais (BIS, 2021), os contratos com papéis derivativos em 2020 alcançaram a espantosa marca de 582 trilhões
de dólares. Para agravar essa situação, há uma mudança nos padrões
de vencimento desses contratos. No caso dos derivativos de ações, esses
chegam a ter um prazo inferior a um ano, pressionando ainda mais os
credores para a obtenção de liquidez no curto prazo. Considerando o volume desses contratos, para efeito de comparação, o PIB mundial previsto
para 2024 deve ser de 105 trilhões de dólares, menos de cinco vezes a
soma de capitais fictícios em papéis derivativos.
Já no que tange ao contínuo aumento mundial das dívidas, as revistas econômicas da burguesia, voltadas para dialogar com a própria
classe, têm alertado com frequência, desde 2023, para o risco de uma
crise de grandes proporções nos próximos anos, exatamente devido a esse
crescimento acelerado. A dívida mundial, em março de 2024, alcançou a
cifra de 315 trilhões de dólares, de acordo com a revista Exame (2024),
extraídos a partir de dados do Instituto Internacional de Finanças. A
divisão desse montante é a seguinte: 94,1 trilhões de dólares para as
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dívidas de empresas não financeiras, 91,4 trilhões de dólares para dívidas
governamentais, 70,4 trilhões de dólares para dívidas de organizações
do setor financeiro e 59,1 trilhões de dólares para dívidas das famílias.
No caso das dívidas públicas, o montante acumulado pelos países
que fazem parte do G20 ou se aproxima do próprio PIB, ou, em alguns
casos, já ultrapassou. Como elemento ilustrativo, o Brasil possui uma
dívida pública equivalente a 71% de seu PIB; já na sequência temos Reino
Unido, com 97%; Espanha, com 106%; Canadá, com 107%; França, com
111%; Estados Unidos, com 122%; Itália, com 138%; Singapura, com
168%; e Japão, com 260% (Trading Economics, 2024).
Como o dinheiro em si não gera valor adicional — sendo o trabalho a verdadeira fonte de criação de valor —, o montante de capital
acumulado, nas mais diversas formas, exerce uma pressão crescente
para que o movimento de acumulação de capital intensifique as ações
de contratendência, o que afeta diretamente as condições de vida dos
trabalhadores. Enquanto o processo de pilhagem global é conduzido
por uma plutocracia burguesa, sob o comando do sistema financeiro,
todas as frações da burguesia encontram na produção a origem primária da exploração.
5. O embate entre Estados Unidos e China
As contradições básicas que assolam o capitalismo não são postas
por agentes externos, mas decorrem de seu próprio movimento. Na conjuntura internacional das últimas décadas, a China se consolidou como
principal destino de investimentos externos, propiciando um relativo
alívio quanto às consequências da crise estrutural do capital. Assim, o
acelerado crescimento da China foi absolutamente fundamental para a
expansão da acumulação na passagem do século XX ao XXI, permitindo
aos grandes monopólios acesso a uma gigantesca massa de trabalhadores
e consumidores chineses.
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A princípio, a China foi tratada apenas como uma nova fronteira
para a expansão capitalista, marcada por abundante oferta de força de
trabalho, mas ainda subordinada tecnológica e economicamente aos monopólios do Ocidente. Nesse sentido, a expectativa era de que essa imensa
oficina de produção mundial mantivesse uma relação de dependência em
relação aos Estados Unidos, tal qual ocorrera em outras regiões do mundo, como América Latina, no sudoeste asiático, Oriente Médio e Oceania.
A China, com seu gigantesco mercado de trabalho, é provavelmente
o país que, no cenário recente, de maneira mais explícita, tem demonstrado como o capital encontra força de trabalho barata e rigidamente
disciplinada. Trata-se, portanto, de uma força de trabalho ideal para
a produção dos grandes monopólios. Ademais, o país asiático soube
adaptar-se rapidamente às exigências de crescimento de produtividade, desenvolvendo processos migratórios internos intensos, capazes de
transformar pequenas cidades chinesas, como Shenzhen e Dongguan,
em metrópoles com enorme capacidade produtiva (Harvey, 2012).
Parte do equívoco na análise do potencial de crescimento chinês foi
a suposição de que a China não desenvolveria seus próprios monopólios
para competir com os Estados Unidos. Contrariamente a esse prognóstico,
o país asiático buscou alcançar autonomia financeira e tecnológica, tornando-se não apenas exportador de maquinários sofisticados e produtos
tecnológicos, mas também de manufaturados de elevado valor agregado.
Além disso, a China se consolidou como exportadora de capitais. No que
tange a este último aspecto, o país realizou empréstimos superiores a
US$ 1,3 trilhão na última década, especialmente para financiar projetos
de infraestrutura em países de baixa e média renda (Martin, 2023). Esse
movimento evidencia uma ampliação da esfera de influência chinesa,
conectando diversos países às suas complexas cadeias produtivas, pela
chamada nova rota da seda.
O fato é que a relativa decadência dos Estados Unidos diante do
crescimento chinês se configura como um elemento potencialmente explosivo nesta primeira metade do século XXI. Com a recente eleição de
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Donald Trump, a tendência é de que esse enfrentamento se intensifique
nos próximos anos, embora, provavelmente, sem uma solução efetiva
capaz de recompor, pela via econômica, a ascensão estadunidense.
Se o objetivo for analisar a força da dinâmica produtiva que tipicamente caracteriza as relações de produção na atual fase do capitalismo,
esse papel não é desempenhado pela economia americana, mas pela
China. No contexto histórico contemporâneo, a hegemonia econômica,
política e militar ainda reside nos Estados Unidos; no entanto, o país já
não detém o domínio quantitativo da produção mundial, como ocorreu no
período pós-guerra, sendo atualmente uma exceção apenas nos setores
de defesa, energia e agronegócio. No enfrentamento de suas próprias
contradições, o campo bélico se configura como o espaço onde os Estados
Unidos mantêm superioridade, além de ser um setor fundamental para
a dinamização de sua economia. Por esse motivo, a tendência é de que
a estratégia norte-americana em curso seja de intensificar sua ofensiva
no campo militar, seja atuando diretamente, seja com o auxílio de países
sob sua órbita de influência. Mesmo com Trump no poder, representando
interesses internos distintos dos do Partido Democrata, a lógica de uma
ofensiva bélica, no que tange à política externa, não apresenta sinais de
que será alterada.
Ainda sobre esse embate, cabe ainda ponderar que há uma forte
imbricação e até complementariedade das duas economias, sendo essa
uma contradição de difícil contorno. Enquanto os Estados Unidos figuram
como os principais investidores diretos na China, esta última se destaca
como a maior credora externa dos Estados Unidos. A China lidera o mercado de exportações globais, enquanto os Estados Unidos se posicionam
como maior importador mundial. Em resumidas palavras, a solução para
esse conflito é um verdadeiro nó górdio.
No núcleo duro dessa questão, o ponto mais relevante a considerar
é que não se trata de uma disputa de um capitalismo mais “selvagem”,
representado pelos norte-americanos, contra um capitalismo mais “domesticado” pelo Estado, como o chinês. Não há, portanto, um “capitalismo
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do bem”, de um lado, e outro “capitalismo do mal”, do outro lado. Uma
análise dessa natureza seria o equivalente a uma espécie de crítica simplista, redutora e maniqueísta, quase como uma visão crítica econômica
pentecostal. O que observamos nas duas realidades é a reprodução da
exploração sobre os trabalhadores, além de um crescente processo de
concentração de riqueza nas mãos de poucos.
À guisa de conclusão sobre um debate em aberto
Em A tempestade, peça de Shakespeare, um avassalador e inesperado temporal atinge um barco que cruzava o Mar Mediterrâneo, em uma
viagem que se iniciava no sul da Itália e rumava em direção ao norte do
continente africano. A bordo, viajavam vassalos serviçais e, principalmente, nobres de Nápoles e de Milão. Ao ser tomado por raios, trovões
e pelo furor das ondas, o barco é destruído e seus passageiros lançados
ao mar revolto. Ferdinando, filho do rei de Nápoles, ao perceber o horror
daqueles instantes e o temor por uma iminente morte, exclama a frase:
“o inferno está vazio e todos os demônios estão aqui”.
No enredo de Shakespeare, tal tempestade é artificialmente provocada por Próspero, antigo duque de Milão, que, após ser deposto do poder,
passou a viver em uma ilha, onde adquiriu poderes de magia e feitiçaria.
Miranda, sua filha, compadecida com o destino dos ocupantes do barco,
questiona o pai, temerosa de que tenha sido ele quem causou o desastre.
Próspero confirma, sem hesitação, que sim, foi ele mesmo quem conjurou
a tormenta com o auxílio de Ariel, figura mítica que também habitava a
mesma ilha. Em seguida, o antigo duque tranquiliza a filha, explicando
que, com seus poderes mágicos, ele cuidou para que todos os náufragos
fossem salvos, estando agora apenas adormecidos no leito da praia.
Já a tempestade de nossos dias e a tormenta que assola os trabalhadores se expressam na continuidade e no adensamento das contradições geradas pela acumulação de capital numa conjuntura de crise
estrutural. Não se trata apenas de um distúrbio econômico severo, seus
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desdobramentos atingem diretamente as condições de vida dos trabalhadores. Nesta terceira década do século XXI, é impossível tentar ignorar
que as espessas nuvens de uma catástrofe ambiental e social se tornam
a cada instante visivelmente mais escuras no horizonte da humanidade
(Barros, 2015). No âmbito do trabalho, as jornadas se alongam, o ritmo
laboral torna-se mais frenético e as pressões por alcançar metas inatingíveis recaem sobre cada trabalhador, enquanto o medo do desemprego
— ou de jamais obter um emprego — torna-se uma constante. Há mais
mortes no mundo por suicídio do que por guerras: 700 mil suicídios por
ano, o equivalente a um a cada 40 segundos (OMS, 2021). Em pleno século
XXI, diante do avanço alcançado pelas forças produtivas, é uma contradição difícil de justificar racionalmente o colossal volume de recursos
destinados à produção bélica, voltada à aniquilação da vida, enquanto
crianças ainda morrem de inanição ou por falta de acesso a tratamentos
já disponíveis.
Quanto ao caráter anódino e débil das repostas do capital para o
enfrentamento de crise estrutural, há um impedimento sob vários aspectos de qualquer possibilidade de retorno a uma solução keynesiana.
Nesse sentido, o movimento de enfrentamento conduzido mundialmente
pelo capital tem sido numa aposta dobrada na aplicação do receituário
neoliberal. Ou seja, são ações que têm provocado o alargamento do desemprego, o ataque aos direitos dos trabalhadores e o arrocho fiscal em
benefício da rapinagem do fundo público. Já do ponto de vista dos conflitos internos entre diferentes interesses de suas burguesias, os riscos
da guerra são uma ameaça para populações inteiras e para a própria
existência da humanidade.
Nesta fase ameaçadora à vida humana, capital e destruição tornaram-se unívocos. Já não é possível separar capital e destruição, mais do
que isso, é algo que é imanente ao próprio sistema metabólico que acolhe
o lucro e nega a vida. Mészáros é quem afirma que “a causa fundamental
dos nossos problemas cada vez mais sérios não é a ‘face inaceitável do
capitalismo desregulamentado’, mas sim a sua substância destrutiva”
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Apontamentos sobre a conjuntura mundial
(Mészáros, 2009, p. 28, grifo na obra). Fechar os olhos para esta realidade
não representa uma solução. A rigor, em razão da ameaçadora crise social
com que hoje nos deparamos, nem sequer esta opção nos é permitida.
Porém, o risco em não enxergar a fase potencial e objetivamente destrutiva do capital também permeia as estratégias políticas de quem precisa
enfrentar o capital. Assim, o que a história tem revelado é que a busca por
formas de conciliação de classes é uma ilusória tentativa de acomodação
de interesses, que são estruturalmente antagônicos e inconciliáveis.
Diante de uma crise que se aprofunda e assume, a cada dia, contornos
mais dramáticos para a vida humana, o mundo contemporâneo parece,
à semelhança da peça de Shakespeare, estar à deriva, aguardando uma
urgente transformação que permita escapar dessa tormenta. No entanto, ao contrário do enredo alegórico, aqueles que produzem o horror dos
nossos dias não têm a intenção de salvar os trabalhadores, tampouco
a humanidade. O movimento incontrolável do capital prefere destruir
a vida humana do que interromper seu processo de acumulação. Uma
advertência se faz necessária: o fato de o capital ser incontrolável não
implica que não possa ser superado. Nesse caso, a superação não advém
de qualquer força transcendental, mas resulta de uma luta política orientada pela busca pela superação radical da atual forma de sociabilidade.
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Sobre o autor
Albani de Barros – Doutor em Serviço Social. Professor adjunto. Departamento
de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba.
E-mail: albanibrr@hotmail.com
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