Rotas de acumulação dos usineiros nordestinos (2005-2020).
Autor: Lucas Bezerra (UFAL). Link: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/69722
69722-Texto do artigo ou resenha-282424-1-10-20251223.pdf
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Dossiê
ROTAS DE ACUMULAÇÃO DOS USINEIROS NORDESTINOS (2005-2020)
RUTAS DE ACUMULACIÓN DE LOS EMPRESARIOS DEL AZÚCAR Y ALCOHOL DEL
NORESTE BRASILEÑO (2005–2020)
ROUTES OF ACCUMULATION OF SUGAR AND ALCOHOL ENTREPRENEURS IN THE
BRAZILIAN NORTHEAST (2005–2020)
DOI: http://doi.org/10.9771/gmed.v17i3.69722
Lucas Bezerra 1
Resumo: O artigo analisa as rotas de acumulação dos usineiros nordestinos na série histórica 2005-2020, dedicando-
se à realidade dos estados de Alagoas, Pernambuco e Paraíba, principais produtores e exportadores de açúcar e álcool
na região. O debate estrutura-se em torno da combinação entre o processo produtivo e os métodos de acumulação, de
modo que a exposição se divide em dois planos internamente articulados: “dentro da usina”, que aborda as
transformações no universo produtivo; e “fora da usina”, que evidencia a diversificação das estratégias de acumulação
delineadas por esses empresários. Com base em entrevistas com dirigentes de entidades patronais e movimentos
populares, documentos oficiais e jornalísticos, os resultados indicam que mesmo os tradicionais grupos de usineiros
expandem e sofisticam suas estratégias de acumulação, articulando práticas modernas e arcaicas e renovando formas
de intervenção que assegurem a longeva manutenção de sua posição econômica e política.
Palavras-chave: Burguesia. Usineiros. Agronegócio. Capitalismo contemporâneo. Nordeste brasileiro.
Resumen: El artículo analiza las vías de acumulación de los propietarios de usinas del Noreste de Brasil en la serie
histórica 2005–2020, centrándose en los estados de Alagoas, Pernambuco y Paraíba, principales productores y
exportadores de azúcar y etanol de la región. El debate se estructura en torno al análisis combinado del proceso
productivo y los métodos de acumulación, organizándose el texto en dos dimensiones: “dentro de la usina”, que aborda
las transformaciones en el universo productivo; y “fuera de la usina”, que evidencia la diversificación de las estrategias
de acumulación desarrolladas por estos empresarios. Con base en entrevistas con dirigentes de entidades patronales y
movimientos populares, documentos oficiales y registros periodísticos, el estudio indica que incluso los grupos
tradicionales de propietarios de usinas amplían y sofistican sus estrategias de acumulación, articulando prácticas
modernas y arcaicas y renovando formas de intervención que aseguran el mantenimiento de su posición económica y
política.
Palabras clave: Burguesía. Propietarios de usinas. Agronegocio. Capitalismo contemporáneo. Noreste brasileño.
Abstract: The article analyzes the accumulation routes of Northeastern sugar mill owners in the 2005–2020 historical
series, focusing on the states of Alagoas, Pernambuco, and Paraíba, the main producers and exporters of sugar and
ethanol in the region. The discussion is structured around the combined analysis of the production process and
accumulation methods, with the text organized into two dimensions: “inside the mill,” which addresses
transformations within the productive universe; and “outside the mill,” which highlights the diversification of
accumulation strategies pursued by these entrepreneurs. Based on interviews with leaders of business associations and
popular movements, official documents, and journalistic records, the study shows that even traditional groups of mill
owners expand and sophisticate their accumulation strategies, combining modern and archaic practices and renewing
forms of intervention that ensure the maintenance of their economic and political position.
Keywords: Bourgeoisie. Sugar mill owners. Agribusiness. Contemporary capitalism. Brazilian Northeast.
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Introdução
Os usineiros nordestinos atravessaram o tempo apoiando-se na combinação entre inovações e
velharias. Partícipes de longa data da classe dominante agrária brasileira, “herdeiros” da longa tradição dos
senhores de engenho, eles carregam consigo práticas, relações e privilégios historicamente sedimentados.
Ao mesmo tempo, devido às crises recorrentes que enfrentam, buscam incorporar novidades: no discurso,
elaboraram uma nova retórica de legitimação, assentada na defesa do monocultivo da cana-de-açúcar como
um negócio “agro-social”; no plano econômico, para manterem sua posição no circuito do poder, tiveram
de ajustar suas estratégias de acumulação às diretrizes do capitalismo contemporâneo.
Neste texto, interessa-nos esse segundo ponto, vinculado à dinâmica diretamente econômica. Nosso
objetivo consiste em apresentar algumas indicações acerca das vias contemporâneas de acumulação dos
usineiros nordestinos. Não se trata de oferecer um inventário exaustivo de todas as formas de acumulação
praticadas pelo segmento empresarial em análise, mas de destacar algumas tendências que ajudam a
decodificar o movimento recente desse setor.
Partimos do entendimento de que, embora os usineiros mantenham traços históricos de sua
configuração político-econômica, a dinâmica compreende seu processo de acumulação realiza-se, nos dias
de hoje, por meio da combinação entre novos e velhos métodos, indo da relação parasitária que
historicamente mantiveram (e mantêm) com o Estado brasileiro à incorporação de mecanismos financeiros,
tecnológicos, comerciais e agroindustriais condizentes ao presente estágio de desenvolvimento do
capitalismo na agricultura.
De modo geral, e isso ficará evidente ao longo do texto com base em dados e elementos empíricos,
nosso argumento gira em torno do pressuposto de que há uma diversificação crescente dos dispositivos
pelos quais os usineiros da “zona da cana” nordestina acumulam e asseguram sua reprodução econômica e
política. Dito de outro modo, os usineiros são, cada vez menos, apenas usineiros. Embora a fonte originária
de sua riqueza seja o lucro extraído nas usinas e destilarias, esses capitalistas têm expandido suas operações
para além do setor sucroalcooleiro; transbordam até mesmo os limites do espaço agrário e se projetam como
modernos empresários que atuam não só na esfera produtiva, mas também no comércio, no setor de serviços,
nas finanças, entre outras atividades econômicas.
Nesse sentido, buscamos apresentar a forma e o conteúdo de uma tendência em curso de diversificação
na aplicação de capitais por parte dos tradicionais grupos de usineiros da região. Esse aspecto constitui o
principal ponto discutido neste artigo. Os resultados apresentados derivam de nossa tese de doutoramento.
A análise contempla a dinâmica da acumulação pelos usineiros tanto no interior das unidades produtivas
(usinas e destilarias) quanto em sua atuação para fora, isto é, em outros setores econômicos. Entendemos
que ambas as dimensões — dentro da usina e fora da usina — integram o mesmo processo. Ademais, tentamos
não separar de modo estanque as dimensões econômica e político-ideológica, pois, no desenrolar da análise,
identificamos que o discurso patronal se entrelaça às formas contemporâneas de acumulação, dominação,
exploração e expropriação.
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Metodologicamente, a investigação apoiou-se em pesquisa empírica realizada entre 2021 e 2022 nos
estados selecionados (Alagoas, Pernambuco e Paraíba), incluindo entrevistas com dirigentes de entidades
patronais e de movimentos populares, contrastando-as. O diálogo com a literatura especializada sobre o
setor sucroalcooleiro, com os estudos sobre o agronegócio e sobre as classes dominantes no campo
brasileiro, além do recurso a dados de organismos oficiais, constituiu uma base complementar indispensável
à análise. Somam-se, ainda, documentos e artigos jornalísticos produzidos sobretudo por sindicatos e/ou
associações patronais, que nos permitiram acessar interpretações elaboradas pelos próprios usineiros e seus
porta-vozes. Todo o processo investigativo, construído a partir da triangulação entre pesquisa empírica,
documental e bibliográfica, esteve vinculado à delimitação temporal de nossa análise, que abrange a série
histórica 2005-2020. Trata-se de um período em que o setor sucroalcooleiro, no Brasil, experimentou
transformações significativas, marcadas pela reconfiguração de seus agentes, estratégias e formas de inserção
no mercado de commodities e para além dele.
Nossa exposição está organizada em duas partes, além desta introdução e dos comentários
conclusivos. Na primeira, concentramos nossa análise na dinâmica da acumulação “dentro da usina”,
examinando o processo produtivo e as redefinições recentes na organização interna nas unidades
produtoras. Na segunda parte, voltamo-nos para o que ocorre “fora da usina”, considerando a atuação dos
grupos empresariais em outros setores econômicos, sua influência política e o modo como se posicionam
no circuito mais amplo de poder. Essa divisão permite compreender tanto a dimensão interna quanto a
externa do processo de acumulação, mostrando, nos comentários conclusivos, como elas se articulam e se
reforçam mutuamente.
Dentro da usina: reconfigurações recentes no processo produtivo
No que se refere ao processo produtivo, o empresariado do açúcar e do álcool tem inovado em seus
mecanismos de produção industrial, gestão e controle da força de trabalho. O incremento em
desenvolvimento científico e tecnológico é notório, expresso em equipamentos de geoprocessamento,
maquinário de última geração e sistemas de monitoramento cada vez mais sofisticados. Entretanto, essa
modernização concentra-se majoritariamente no eixo industrial, enquanto o agrícola permanece marcado
por um hiato tecnológico evidente.
No centro dessa contradição está a predominância do corte manual da cana-de-açúcar nas usinas e
destilarias da região. Sem ignorar a tendência à mecanização (Tenório Lima, 2021), preserva-se na zona da
cana nordestina elementos do processo de trabalho dos canavieiros que já se arrastam há séculos. O resultado
é uma elevação da produtividade sem alterações significativas no processo de trabalho na agricultura. Não
se constata, por exemplo, elevação da jornada de trabalho, nem modificações dos instrumentos de trabalho,
nem investimentos consistentes em ciência e tecnologia aplicadas ao cultivo.
Em contraste com a realidade do eixo Centro-Sul, identifica-se uma particularidade inscrita no
âmbito da divisão inter-regional do trabalho, em face da qual as condições de organização da produção
sucroalcooleira nos eixos Norte-Nordeste e Centro-Sul não coincidem 2. Porém, há dois elementos que, ao
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modo de cada região, parecem ter obtido projeção nacional, ambos ligados ao refinamento do processo de
gestão e controle da força de trabalho.
Em primeiro lugar, a nova geração de usineiros tem abraçado o ideário colaboracionista, assumindo o
linguajar do capital em relação ao trabalho. Esse ideário configura-se como uma pedagogia do saber-fazer
coerente à racionalidade empresarial. Enquanto elemento ideológico do processo de dominação-exploração,
manifesta-se não apenas no vocabulário patronal, mas na atuação de setores do movimento sindical dos
trabalhadores no recorte espacial da pesquisa. Constata-se, assim, uma certa adesão de parcelas do
sindicalismo rural ao discurso dos usineiros. Um dos principais espaços em que essa tendência se manifesta
são as convenções coletivas entre empresários e trabalhadores. Segundo um representante dos patrões, “a
convenção coletiva é sempre negociada, discutida de uma forma bem amistosa, de forma a preservar muitas conquistas”
(Entrevistado 2, entidade patronal). O clima “amistoso” a que se refere certamente contribuiu para o baixo
índice de greves e/ou paralisações no período analisado (apenas Pernambuco registra uma ou outra greve
curta, de três a quatro dias, entre 2005 e 2020). Em síntese, esses exemplos demonstram que a ótica
colaboracionista contribuiu para mitigar os conflitos entre patrões e trabalhadores.
Vejamos o que nos relatou o dirigente de um sindicato patronal:
Em 1991 havia um princípio de greve. Naquele ano, um dos empresários tomou a
liderança, foi ao encontro do então presidente da Federação dos Trabalhadores e propôs
um entendimento que fosse bom para as duas partes. Isso iniciou um período
interessante. Dali em diante, desde 1991 nunca mais houve nenhum desentendimento
entre empregadores e trabalhadores (Entrevistado 2, entidade patronal).
Sem sombra de dúvida, negociar é, na arena da política, um atributo intrínseco à relação capitaltrabalho, mediada pela presença das entidades de classe de ambos os lados. O que problematizamos aqui
são os termos dessa negociação: sentar-se à mesa para discutir e negociar não implica, necessariamente, que
os trabalhadores assumam o raciocínio ou a agenda patronal. Uma militante do movimento popular, com
quem dialogamos durante a pesquisa, corroborou essa análise. Em sua visão, o elemento combativo do
sindicalismo rural tem dado lugar a um adesismo às propostas dos usineiros:
Antes o sindicato era mais combativo. Agora não tem mais a denúncia, é impressionante.
A gente faz uma conversa com o presidente e dias depois ele tá na imprensa, sentado na
roda de patrão. O discurso dele é escorregadio, não tem firmeza (Entrevistada 5,
movimento popular).
Essa realidade, contudo, não é uniforme nos estados selecionados. No que tange à direção política
do sindicalismo rural na zona da cana, há variações tanto entre as federações estaduais quanto entre os
sindicatos de trabalhadores rurais em municípios onde a atividade sucroalcooleira está presente. Além disso,
é preciso ponderar que o confronto ao poderio dos usineiros não provém em exclusivo do sindicalismo
rural, uma vez que movimentos populares no campo, como o MST e a CPT, desempenham um papel
importante nessa resistência.
Em suma, o ideário do “colaborador” integra-se ao processo produtivo e aos mecanismos de
controle e gestão da força de trabalho, figurando-se entre as funções pedagógicas exercidas pelos usineiros. Essa
concepção não possui coloração apenas do ponto de vista ideológico, mas também se revela nitidamente
político-organizativa, visto que tenciona alterar a própria percepção de dirigentes sindicais em relação ao capital.
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Em segundo lugar, há uma mudança na condução dos mecanismos de controle e de gestão, com
uma crescente delegação dessas responsabilidades a equipes profissionais especializadas nas áreas de gestão
de pessoas e recursos humanos. A presença de um corpo técnico nas unidades produtoras, gerenciadas por
executivos, libera os usineiros de tarefas que anteriormente costumavam ser de sua responsabilidade.
Embora não seja novidade, isso tem denotado, cada vez mais, um distanciamento gradual entre o usineiro e a usina,
onde pleno funcionamento desta última não depende da coordenação direta do primeiro. No caso de grupos
estrangeiros, esse distanciamento é ainda mais evidente, uma vez que seus proprietários sequer residem no
Brasil. Quanto aos grupos locais, isso sugere um maior envolvimento desses usineiros em outras atividades
empresariais.
Essa transformação também se manifesta na composição dos cargos de direção das entidades
patronais que representam a burguesia do açúcar e do álcool. Na maior parte das vezes, os usineiros não
ocupam diretamente essas posições, mas são representados por aliados de confiança com perfil de
“liderança” corporativa, frequentemente oriundos de cargos executivos em grupos empresariais. Esses
representantes, no geral, são figuras com capacidade de elaboração e dão sustentação à nova retórica de
legitimação fabricada pelo empresariado do setor.
Ao incorporar o ideário do colaborador e intensificar a gerencialização das usinas e destilarias através
da figura do funcionário executivo de alta qualificação, persiste uma convivência entre práticas empresariais
modernas e antiquadas. Os ambientes da gestão e do processamento industrial dos derivados da cana têm
se tornado progressivamente “modernos”. No entanto, isso não se aplica à agricultura na mesma
proporcionalidade. Durante o período safrista, mais uma vez apesar do avanço da mecanização, mais de
cem mil trabalhadores, em média, são contratados para o exercício do corte manual na zona da cana
nordestina.
Ainda que o pagamento por produção (no caso, por tonelada cortada) seja uma prática nacionalizada
na remuneração desses trabalhadores, a divisão inter-regional do trabalho — sob os auspícios do
desenvolvimento desigual e combinado — impõe, historicamente, uma pressão salarial para baixo no Nordeste do
país. Em média, os trabalhadores recebem entre seis e oito reais por cada mil quilos de cana cortada.
Embora, especialmente entre 2005 e 2015, tenha ocorrido uma tendência à formalização dos postos
de trabalho, o salário fixo que consta nas Carteiras de Trabalho e Previdência Social torna-se, na prática, um
artifício. Análogo ao salário por peça discutido por Marx (1980), o pagamento por tonelada cortada reflete a
urgência empresarial de elevação dos índices de produtividade, a única capaz de torná-la economicamente viável.
Isto posto, os trabalhadores canavieiros do Nordeste se veem constrangidos a elevar sua média diária de
toneladas cortadas, encaminhando-se uma articulação orgânica entre produtividade e exploração do trabalho
(Bezerra, 2018).
Aos cortadores de cana, impõem-se a manutenção de seu emprego e a satisfação de sua
sobrevivência básica. A segunda depende da primeira. Para atingi-las, é compulsório ser, no mínimo,
medianamente produtivo. Assim, institui-se um desequilíbrio entre salário e esforço físico, uma vez que a
política salarial adotada pelo setor sucroalcooleiro na região transforma o que seria pagamento de custos da
força de trabalho em maior intensidade do trabalho, logo, em maior produtividade.
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Mesmo um dirigente de um sindicato patronal admite que o trabalho nos canaviais é desgastante:
É serviço pesado? Lógico que é! Mas tem cortador de cana ganhando 3 mil reais. E três
mil reais, numa profissão onde o empregado não teve uma chance, nem uma
oportunidade de estudar, é bem remunerado [...], com todos os seus direitos
reconhecidos, que não é favor nenhum do produtor, do industrial, isso aí é obrigação
mesmo e a lei obriga isso (Entrevistado 1, entidade patronal).
Com argumentos desse calibre, tenta-se convencer os trabalhadores de que o pagamento por
produção lhes é benéfico. Alimentada pelas práticas administrativas das unidades agroindustriais, essa
modalidade inflige ao cortador de cana uma confusão entre intensidade do trabalho e sobrevivência. Com
isso, evidencia-se que a política salarial praticada na agroindústria canavieira desgasta a vida dos
trabalhadores, acirra a exploração, incrementa a taxa de mais-valia e atua como um dispositivo de controle
e desmonte do trabalho. Com base nela, o empresariado sucroalcooleiro elabora estratégias que ampliam o
trabalho excedente, através da unidade entre os mecanismos de controle e gestão da força de trabalho, da
qual o ideário do colaborador é exemplar.
Nessa trama, a dialética moderno-arcaico adquire dimensão fundamental tão quanto atual. Uma prática
anacrônica como o salário por peça, criticada até mesmo por pensadores da Economia Política nos séculos
XVIII e XIX, acaba por ganhar ares de inovação e aparência benemérita. Vale-se, para tanto, do colaborador
e da falsa ideia de que os ganhos de produtividade são positivos a todos que, indistintamente, “fazem” a
empresa.
Não sendo suficiente, é recorrente entre os grupos empresariais a aplicação de estratégias de
competitividade entre os trabalhadores. O exemplo mais emblemático é o dos “campeões” de
produtividade, isto é, os trabalhadores que mais cortam cana em um determinado mês. A estes se retribui
com premiações (na maior parte das vezes, eletrodomésticos). Há também as atividades de “integração”
tidas como “recreativas”. Assim nos relatou um dirigente patronal:
Nós temos programas de integração social. Nesse espetáculo de teatro [apresentado nas
usinas e destilarias] apresentamos valores de uma forma leve, com humor, agradável para
cada uma das cinquenta e tantas turmas de trabalhadores, 58 turmas com 50 trabalhadores
cada turma, entendeu? Esse espetáculo é apresentado para os trabalhadores e as suas
esposas e num clima bem divertido, bem engraçado são discutidas as questões como, por
exemplo, a comida que ele leva para o trabalho, suas condições para trabalhar no dia
seguinte, já que tem que ter cuidado com vícios, sobre limpeza… Bom, são pequenas
coisas, mas engraçadas e divertidas (Entrevistado 2, entidade patronal).
Já ao comentar sobre as ginásticas laborais, ele não fez questão de ocultar os vínculos acintosamente
estabelecidos em relação ao rendimento do trabalhador na jornada de trabalho. E mais: entende a ginástica
como prática de qualificação do trabalhador. Em suas palavras:
Outra coisa que aconteceu também, ao longo desse período, foi uma prática intensiva de
ginástica laboral, uma incorporação da ginástica laboral com alongamento, inclusive um
estudo muito bem feito por um pessoal de Ergonomia sobre cadeia musculares, mas o
que realmente valeu é que a ginástica laboral passou a ser uma prática de todo mundo.
Assim, é uma coisa que todo mundo tem prazer e sente a importância. [Disso resulta] um
incrível domínio da vontade e uma capacidade de trabalho diferenciada (Entrevistado 2,
entidade patronal).
De ambos os exemplos, o que se extrai é uma conversão instantânea e sistemática da qualificação profissional
e das atividades “sociais” em formas de acirrar o controle do trabalho. No caso da ginástica, por exemplo, seu impulso
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é deliberadamente produtivista, porém enrustido do argumento de preocupação com a saúde do trabalhador,
transformado em falacioso no instante em que nosso interlocutor revela requerer uma “capacidade de trabalho
diferenciada”.
Contraditoriamente, a intensificação da produtividade convive com um conjunto de conquistas
civilizatórias dos trabalhadores no período analisado. Processadas sob as condições possíveis da negociação
“amena” entre a usinagem do capital e o sindicalismo rural, definitivamente não são irrelevantes. Tornaramse possíveis graças a uma conjunção de fatores, dentre os quais podemos destacar três: i) a construção de
uma pauta sindical pleiteada junto ao empresariado; ii) a mobilização de diversos setores da sociedade em
torno da exploração do trabalho dos cortadores de cana, visibilizando-a, denunciando-a (o trabalho infantil,
em particular, ganhou muita notoriedade; iii) as condições possibilitadas por governos progressistas, como
os de Lula da Silva (2003-2010), do qual resultou o Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições
de Trabalho na Cana-de-Açúcar.
Os avanços favoráveis ao trabalho ocorreram especialmente entre 2008 e 2015. Durante essa série
histórica, houve uma queda significativa da informalidade no setor sucroalcooleiro e muitos outros
elementos foram suplantados: a exploração do trabalho de crianças e adolescentes; a presença de
intermediários entre canavieiros e usinas, até então responsáveis pelo recrutamento e pelo pagamento dos
trabalhadores (os chamados “gatos”); os “gaiolões” foram substituídos por ônibus; presenciou-se a
obrigatoriedade de distribuição de equipamentos de proteção individual. No entanto, mesmo conquistas
dessa natureza, não são definitivas ou inabaláveis. Nossa história recente é abundante em exemplos que
confirmam essa avaliação. Assim destacou uma militante do movimento popular com quem dialogamos:
O que eles [os patrões] se beneficiaram nesse processo mais recente foi com a reforma
trabalhista, que precarizou bastante o trabalho e aí deu um fôlego a eles para diminuir os
direitos da classe trabalhadora. Isso ajudou os usineiros, acho que estão sobrevivendo é
com essa reforma, porque nos últimos anos eles entraram em crise (Entrevistada 5,
movimento popular).
A partir das razões expostas, pode-se concluir que a manutenção do processo produtivo na
agricultura, ainda assentado no corte manual e em baixos salários, é fundamental para a reprodução do
processo de acumulação dos usineiros na zona da cana nordestina. Nesse sentido, as tensões entre conquistas
dos trabalhadores e “concessões” dos usineiros têm no elemento da produtividade um nó crucial. Os
avanços nas condições e relações de trabalho acabam por também configurar melhores condições para que
seja alavancado o ritmo produtivo das unidades agroindustriais.
Assim, a nova geração do empresariado do açúcar e do álcool utiliza-se das benesses que tanto
antigas quanto novas práticas empresariais lhes proporcionam. Ao contrário do modo como tratam o
ambiente industrial das usinas e destilarias, pouco ou quase nada altera o processo de trabalho na agricultura.
Em contrapartida, atualizam seus mecanismos de controle e gestão do trabalho, tornando as empresas cada
vez mais gerenciáveis e modernas, adequadas às práticas correntes no capitalismo contemporâneo, sem deixar
de, quando possível, tratar como “novo” o que é “velho”, a exemplo do pagamento por produção. Entre a
perpetuação e a mudança, os elementos sintetizados nos fornecem um panorama do processo produtivo.
Agora, torna-se imperativo decifrar a atuação econômica dos usineiros do lado de fora das usinas e destilarias.
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Fora da usina: a diversificação crescente dos métodos de acumulação
O movimento expansivo dos métodos de acumulação pelos usineiros é um fato consumado. Se, em
tempos passados, seu lucro esteve majoritariamente ligado ao universo da produção agroindustrial, a série
histórica analisada revela uma nítida extrapolação desse limite. Na atualidade, o usineiro é mais que usineiro.
A aura do tradicional é, pura e simplesmente, incapaz de explicá-lo. Embora, na maior parte das vezes,
herdeiro da tradição familiar de substrato oligárquico, esse empresário moderno tende a diversificar a aplicação
de seus capitais, investindo em negócios capazes de ampliar o quantum de capital acumulado. Pouco importa
se na cidade ou no campo, na indústria ou na agricultura, no capital comercial ou no capital bancário, no
setor de serviços ou financeiro: o critério decisivo é, evidentemente, a rentabilidade. Sintonizado à dinâmica
capitalista de seu próprio tempo, esse segmento empresarial compreendeu, na era do agronegócio, a
necessidade de operar segundo o esquema de portfólio de investimentos. Incapazes de se despir por inteiro
dos traços de proprietários fundiários, os usineiros nordestinos de hoje, ainda que predominantemente atrelados
ao peso de uma tradição secular, são cada vez mais empresários modernos.
Em torno dessa configuração, verifica-se, de um lado, a relação estabelecida entre usineiros,
empresas estrangeiras e bancos, bem como sua participação em outros setores da economia; de outro, notase também a inserção de diferentes setores econômicos no agronegócio canavieiro. Trata-se de uma
conformação mais complexa do que se possa presumir.
Há quase duas décadas, em 2007, o jornal Folha de São Paulo noticiou: “Os usineiros nordestinos
passaram a produzir açúcar e álcool no Triângulo Mineiro, em São Paulo, em Goiás e em Mato Grosso. O
grupo João Lyra (do empresário e ex-senador João Lyra) já tem 60% de sua produção fora do estado” (Folha
de S. Paulo, 8 jul. 2007). Esse exemplo indica uma característica que parece generalizável ao patronato rural
e agroindustrial no Brasil, qual seja, que ele detenha vários investimentos, em diversos setores, sendo a terra
mais um deles. Se antes era possível analisar de maneira sistemática o papel do capital bancário, do capital
produtivo e do capital comercial, esse entrelaçamento de funções — exemplificado na ampliação dos
dispositivos de acumulação dos usineiros — confirma a complexificação crescente da atuação burguesa.
No caso dos usineiros, essa tendência não é exatamente recente ou inédita. Seu avanço, todavia,
vem acontecendo em ritmo que não se verificava em momentos anteriores. Neste sentido, identificamos uma
tendência crescente à diversificação dos métodos de acumulação como uma das características mais marcantes da morfologia
contemporânea dos usineiros do açúcar e do álcool no Nordeste brasileiro. É a partir de sua expansão, da aplicação de
seus capitais em outros negócios, da ânsia por tornar-se cada vez mais empresário e cada vez menos
proprietário rural em sentido estrito, que se fortalece sua posição dominante, cuja reprodução requer uma
adequação às leis próprias de funcionamento da economia política do agronegócio (Delgado, 2010).
Na zona da cana nordestina, um dos precursores dessa tendência foi o agroindustrial alagoano Carlos
Lyra (1925-2017), respeitado e admirado pelos empresários de sua geração e visto pelas atuais como um
pioneiro de profundas mudanças na organização empresarial do setor no Nordeste. Já mencionado algumas
vezes, Carlos Lyra, herdeiro da tradição canavieira em seu estado, foi o fundador e proprietário de um grupo
empresarial que leva seu nome. No início dos anos 1950, iniciou seus negócios na Algodoeira Lagense. Na
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década de 1960, adentrou no negócio da cana-de-açúcar, assumindo o controle da Usina Caeté. O
pioneirismo de Lyra em diversificar seus métodos de acumulação foi perene: nos idos de 1970, ingressou
no setor agropecuário; nos anos 1980, no de táxi-aéreo; nos anos 1990, nos de rádio e TV e químicos e
fertilizantes; ainda naquela década, expandiu seus negócios com os derivados da cana através de abertura de
usina no estado de Minas Gerais (Agroindustrial Volta Grande), extrapolando fronteiras regionais.
A este respeito, lê-se em informativo oficial dos usineiros do estado de Alagoas trechos como os
seguintes:
[Carlos Lyra] foi um empresário com características empreendedoras positivamente
diferenciadas para seu tempo, quando se considera o largo espectro de seus
empreendimentos e o alcance social e econômico dos mesmos, cujos resultados
repercutem de forma significativa para as regiões onde se localizam e, em especial, para
nosso estado de Alagoas (Informativo Agora, 25 ago. 2017).
Por ter o exercício de uma liderança típica, [Carlos Lyra] tornou-se um companheiro
admirado pelos seus contemporâneos e reverenciado pela sua família de sucessores
empreendedores dedicados e vitoriosos. É com essa memória de realizações e de
comportamento e com esse exemplo empreendedor que a saudade do Carlos Lyra será
superada (Informativo Agora, 25 ago. 2017).
As iniciativas emplacadas pelo pioneiro, os setores escolhidos, tornaram-se desde então uma
referência ao empresariado do açúcar e do álcool no Nordeste quando o assunto é a diversificação das vias
de acumulação. E hoje, sob o impulso da hegemonia do capital financeiro e do agronegócio, quaisquer
possibilidades promissoras de lucro são interessantes, independente se o negócio é no setor produtivo,
comercial, tecnológico ou financeiro.
Uma de nossas interlocutoras, militante do movimento popular, chama atenção para o seguinte:
Precisamos levar em conta que de 2000 para cá eles não expandiram muito
territorialmente aqui no Nordeste. Diferente do Cerrado ou da Amazônia, aqui eles não
têm mais pra onde crescer. Então eles estagnaram naquela porção de terra que já tinham
e deram seu jeito para compensar isso com produtividade e diversificando a produção
deles (Entrevistada 4, movimento popular).
No caso do estado da Paraíba, outra entrevistada afirma que uma das principais novas fontes de
investimento é a própria agricultura. Na visão do movimento do qual faz parte, “[os usineiros] têm apostado
na criação de gado e no cultivo de eucalipto, de Itabaiana pra cá [João Pessoa] tem sido isso, algo bem claro pra nós, bem
visível” (Entrevistada 5, movimento popular). Nesse mesmo estado, há também grupos empresariais que, à
semelhança dos Lyra em Alagoas, têm atuado no agronegócio da cana em outros estados. É o caso da
Japungu Agroindustrial, que nas palavras de um dirigente patronal:
É reconhecida no Brasil todo [a Japungu]. É aqui da Paraíba, onde eles têm duas unidades
produtoras. Continuam com duas aqui e quatro no Sudeste: três em Goiás e uma em
Minas Gerais. Tudo um sucesso. Me dá uma alegria pertencer e ser conhecedor de um
pessoal desse (Entrevistado 1, entidade patronal).
Originariamente pernambucanos, os Tavares de Melo também têm diversificado a aplicação de seus
capitais, atuando nos estados de Pernambuco e Paraíba. Por um período, arrendaram suas terras e venderam
as instalações da Usina Giasa, localizada no município de Pedras de Fogo (PB), para a mencionada
multinacional Louis Dreyfus Commodities. Em 2019, com o abandono da operação Biosev da Louis Dreyfus,
retomaram seus negócios nessa unidade. Afora isso, ingressaram na onda expansiva do agronegócio
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sucroalcooleiro no Mato Grosso do Sul. Figura-se, atualmente, entre as dez principais empresas nesse estado
em que os derivados da cana-de-açúcar concentram 18% do total de agroexportações.
Em Alagoas, a diversificação de capitais constitui fator de relevo para um grupo como os Lyra, que
tem decretado falência de suas unidades produtoras de açúcar e álcool. Elemento que chama atenção nesse
estado, a contar com participação desse grupo, é o cooperativismo empresarial. A Cooperativa Pindorama,
mencionada no mapeamento das empresas em operação, possui uma usina de açúcar, uma destilaria de
álcool e organiza a produção de mais de oitenta produtos para comercialização, oriundos não só da canade-açúcar, mas da fruticultura e dos laticínios. Na prospecção de um dirigente patronal, é preciso alimentar
iniciativas como “cooperativismo e associativismo, pois temos que nos fortalecer e divulgar um produto que nós temos, que
gera emprego, alimento, combustível limpo e, num futuro bem próximo, biogás de vinhaça” (Entrevistado 1, entidade
patronal).
Com uma moeda própria que circula entre os cooperados e estimula o consumo de seus produtos,
assim o diretor comercial da Cooperativa Pindorama analisa a necessidade de diversificação dos negócios:
A gente enxerga dentro da indústria do setor, muitas oportunidades para que você saia
dessa base do açúcar e do etanol, explorando outros caminhos ante a necessidade de gerar
mais resultados para o cooperado. Temos hoje mais de 80 produtos, além da área de
suco, álcool 70 em gel, com aroma, entre outros (Klécio José dos Santos, diretor da
Cooperativa Pindorama).
Parece-nos que a diversificação dos negócios representa uma medida defensiva e expansiva da atual
geração de usineiros no Nordeste brasileiro. Por meio dessa estratégia, esse segmento não só fortalece sua
posição econômica, mas também se posiciona de maneira mais sofisticada no campo político-ideológico.
Um dos negócios de usineiros mais comuns entre os estados analisados é a propriedade ou interferência
direta sobre emissoras de rádio e TV, além de jornais impressos. Em Pernambuco, por exemplo, a TV
Tribuna, afiliada da Rede Bandeirantes, pertence ao grupo João Santos, enquanto o jornal Folha de
Pernambuco é dos Queiroz Monteiro. Na Paraíba, os tradicionais Ribeiro Coutinho monopolizam a Rádio
Arapuan, entre outros exemplos. É importante notar que, nos negócios envolvendo meios de comunicação,
destaca-se um diferencial: trata-se, certamente, da mais antiga diversificação de empreendimentos dos
usineiros.
Também há indícios de uma crescente entrada dos usineiros no setor imobiliário. Além disso, é
importante listar os investimentos em setores tecnológicos voltados à dinâmica produtiva do próprio setor
sucroalcooleiro. Um ponto delicado nesse emaranhado é a participação desses empresários no circuito
financeirizado do capital. No caso dos grupos tradicionais, a aplicação de ativos em bolsas de valores, por
exemplo, integra as operações econômicas da empresa, embora detalhes dessas ações não sejam divulgados
publicamente.
Ademais, o dinamismo dos métodos de acumulação implica, pelos mesmos processos, expropriações
contemporâneas, tornadas “[...] agressivas e potencialmente ilimitadas, ao converter características humanas,
sociais ou elementos da natureza em potenciais mercadorias” (Fontes, 2011, p. 45). Em tais condições, nas
quais o arcaico e o moderno interagem organicamente, percebe-se a expropriação dos meios de produção e
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subsistência a partir de sua contemporaneidade, e não como um fenômeno datado da “pré-história” do
capitalismo.
Podemos recorrer a um exemplo em Pernambuco: a Usina Trapiche, pertencente ao Grupo Serra
Grande. Esta usina é uma das principais fornecedoras de açúcar para grandes monopólios, como a CocaCola, e presta serviços para outras multinacionais, incluindo Bunge, Unilever e Pepsico. Localizada em
Sirinhaém, no Litoral Sul do estado, a usina e o monocultivo por ela praticado correspondem
surpreendentemente a 72% da área total do município. Não sobra terra para quase nada nem para quase
ninguém. Desde os anos 1980, essa região tornou-se uma arena intensa de conflitos entre usineiros e
comunidades tradicionais e pescadores (Marques et. al., 2022).
Esse exemplo evidencia como a engenhosa combinação entre expropriação e acumulação,
sustentada pelas motivações econômicas mais diretas dos usineiros, se articula à reatualização da defesa do
monopólio privado da terra e do favorecimento que ele garante à reprodução do patronato agroindustrial.
Embora o tradicionalismo conservador constitua um traço intransponível da atuação dos velhos usineiros,
essa defesa busca hoje projetar uma imagem “agro-social”, em dissonância flagrante com a realidade
concreta. Na prática, o que persiste é a usurpação de um meio de produção universal como a terra e a
corrosão da força de trabalho, revelando a face crua da dominação de classe no campo brasileiro.
Comentários conclusivos
As atuais rotas de acumulação dos usineiros nordestinos evidenciam uma configuração complexa,
marcada por permanências e transformações que atravessam tanto os limites internos da produção
agroindustrial quanto as relações com outras frações do capital. Ao longo do texto, procuramos demonstrar
que a reprodução dessa fração burguesa não se dá apenas pela manutenção de sua posição tradicional no
campo da produção dos derivados da cana-de-açúcar, mas pela diversificação na aplicação de capitais. Em
nossa avaliação, tais rotas não se restringem ao universo stricto sensu da produção agroindustrial, mas se
estendem a outras atividades econômicas, redefinindo os mecanismos de acumulação e as ampliando as
funções de classe desempenhadas por esse segmento.
No interior da usina, a lógica de acumulação permanece fortemente vinculada ao controle da terra,
à exploração da força de trabalho e à permanência da monocultura canavieira como eixos estruturantes da
atividade econômica que praticam. Essa dimensão interna mostra como o núcleo produtivo agroindustrial
segue sendo um espaço fundamental de valorização e de sustentação político-econômica, onde as velhas
estruturas do latifúndio e da exploração do trabalho continuam a exercer papel determinante, mas
influenciadas pela reestruturação produtiva do parque agroindustrial sucroenergético pós-1990, cenário em
que a ultra-especialização emergiu como estratégia competitiva (Carvalho, 2008). Já fora da usina,
identificamos uma dinâmica cada vez mais evidente de diversificação, seja por meio da expansão dos
negócios em áreas como agropecuária, meios de comunicação, construção civil, táxi aéreo, entre outros, seja
pela intensificação de parcerias estratégicas com grupos empresariais de maior envergadura.
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Essa dupla articulação – dentro e fora da usina – ajuda a compreender como os usineiros
nordestinos se mantêm ativos e influentes, mesmo diante de crises e transformações que, em princípio,
poderiam ter ameaçado sua sobrevivência. Ao longo do texto, ao observarmos a dinâmica dentro e fora das
unidades produtoras, percebemos que ambas constituem dimensões indissociáveis de um mesmo processo
de reprodução do capital. A rigor, a agroindústria concentra, em sua estrutura e dinâmica, a extração direta
de mais-valor, expressa na exploração da força de trabalho, na intensificação da produtividade e na absorção
de inovações tecnológicas no processamento do açúcar e do álcool (o que viabiliza, nos termos de Marx,
uma elevação na composição orgânica do capital). Já o que acontece “fora da usina” evidencia a extensão dessa
realidade a outros setores produtivos ou a inovação nos mecanismos de acumulação através da abertura de
negócios com os quais esses empresários não transavam em tempos anteriores. Há um reforço mútuo entre
uma dimensão e outra: o excedente apropriado na produção agroindustrial é favorecedor da inserção em
novas rotas de acumulação, enquanto o êxito dos negócios fora da usina retroalimenta a possibilidade de
reprodução ampliada dentro dela.
É necessário reconhecer, contudo, que a interpretação aqui apresentada ainda precisa ser expandida,
aprofundada e problematizada. As dificuldades metodológicas são evidentes: trata-se de um campo de
pesquisa em que o acesso ao sujeito – o usineiro – é extremamente restrito, assim como é restrito o acesso
a determinadas informações empresariais. Por isso, o que se oferece neste texto é, em grande medida, um
esforço de aproximação, que busca lançar luz sobre tendências em curso, sem pretender esgotar a
complexidade do tema.
Do mesmo modo, é importante destacar os limites da análise. O foco concentrou-se na dinâmica
econômica, com ênfase nos processos de diversificação e expansão dos mecanismos de acumulação.
Entretanto, a compreensão mais abrangente da burguesia do açúcar e do álcool no Nordeste brasileiro exige
a problematização de dimensões outras, decisivas para o entendimento de sua configuração atual. A
organização política desses empresários, suas perspectivas ideológicas, a relação que estabelecem com o
Estado, são aspectos fundamentais que compõem as práticas de classe desse segmento burguês e que, na
tese (cf. Bezerra, 2022), buscamos desenvolver de maneira mais sistemática.
Fato é que as rotas de acumulação identificadas constituem um ponto de partida para investigações
futuras. Elas nos permitem vislumbrar os caminhos por meio dos quais os usineiros se atualizam,
reconfiguram suas formas de dominação-exploração e se mantêm como um ator relevante no interior do
capitalismo dependente brasileiro. Mas também nos lembram que tais rotas não são lineares nem isentas de
contradições: elas se constroem em meio a tensões, crises e disputas que configuram, de modo particular, a
experiência histórica dessa fração da classe dominante.
Por fim, parece-nos importante enfatizar que os resultados aqui apresentados não refletem um
particularismo isolado dos usineiros nordestinos. Pelo contrário, o exame desse segmento do patronato
agroindustrial confirma tendências mais amplas das classes dominantes no campo brasileiro a partir da
instituição do agronegócio (Bruno, 1993; Delgado, 2009; Fontes, 2009). Nossa síntese constituiu tão
somente um exercício de análise localizado, concentrado em um setor produtivo e em uma região específica.
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Referências :
BEZERRA, L. O trabalho dos cortadores de cana na Paraíba dos anos 2000: exploração e
produtividade. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife,
2018.
BEZERRA, L. A burguesia do açúcar e do álcool no Nordeste brasileiro: um estudo sobre suas
práticas de classe (2005-2020). Tese (Doutorado em Serviço Social) - Escola de Serviço Social,
Universidade Federal do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2022.
BRUNO, R. Patronato rural: a modernização da retórica. Reforma Agrária, v.1, n.1, abr. 1993.
CARVALHO, C. P. Setor sucroalcooleiro de Alagoas: a ultra-especialização como estratégia competitiva.
Anais do XLVI Congresso Brasileiro de Economia, Administração e Sociologia Rural. Rio Branco,
Acre, 2008.
DELGADO, G. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio: mudanças cíclicas
em meio século (1965-2012). Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2012.
FONTES, V. Expropriações contemporâneas: um primeiro debate teórico. Cadernos Cemarx, São
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FONTES, V. Prefácio. In: MENDONÇA, S. R. O patronato rural no Brasil recente: 1964-1993. Rio de
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GUANAIS, J. B. Pagamento por produção, intensificação do trabalho e superexploração na
agroindústria canavieira brasileira. 2016. Tese (Doutorado em Sociologia) – Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016.
MARX, K. O capital: crítica da economia política. Livro I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
TENÓRIO LIMA, J. R. Colheita mecanizada da cana-de-açúcar: o que nos revelam os especialistas do
setor sobre as motivações e impeditivos da sua adoção na realidade canavieira de Alagoas? Estudos
Sociedade e Agricultura, v.29, n.1, p.219-245, fev./mai, 2021.
Notas
1 Doutor em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor da Faculdade de Serviço
Social da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Membro do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação
em Serviço Social da Ufal. Coordena o Grupo de Pesquisa e Extensão Agricultura e Sociedade (Gepas/Ufal/CNPq).
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6304680071717288. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1297-2224. E-mail:
lucasbezerra.1917@gmail.com.
2 Escapa à nossa delimitação discutir os elementos do processo produtivo em estados do eixo Centro-Sul. Para um
estudo recente a este respeito, voltado sobretudo à investigação das condições e relações de trabalho, ver Guanais
(2016).
Recebido em: 27 de ago. 2025.
Aprovado em: 2 de dez. 2025.
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