Controle do capital sobre o trabalho e as TICs.

Autoras: Rebeca Carolina Santos Maceno; Reivan Marinho de Souza (UFAL). Link: https://periodicos.ufsc.br/index.php/katalysis/article/view/105978

Arquivo
1982-0259-rk-28-e105978.pdf
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                    DOI: https://doi.org/10.1590/1982-0259.2025.e105978

ESPAÇO TEMÁTICO: TECNOLOGIA, DIGITALIZAÇÃO DO ESTADO E POLÍTICAS SOCIAIS

Controle do capital sobre o trabalho e as TICs
Rebeca Carolina Santos Maceno1
https://orcid.org/0009-0003-8660-0129

Reivan Marinho de Souza1
https://orcid.org/0000-0002-3919-9454

Universidade Federal de Alagoas, Serviço Social, Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, Maceió, Alagoas, Brasil.

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Controle do capital sobre o trabalho e as TICs
Resumo: Este artigo aborda a relação entre controle e tecnologia na contemporaneidade, com foco no incremento das tecnologias
da informação e comunicação (TICs) nas esferas de trabalho. O ponto de partida é a realidade atual, analisada por meio de pesquisa
bibliográfica, à luz da tradição marxista, e de dados empíricos recentes provenientes de organismos institucionais. Na primeira parte,
discute-se a relação entre tecnologia e controle na reprodução do capital, evidenciando o avanço tecnológico que se intensifica com a
crise estrutural, revelando o limite incontrolável e destrutivo do capital. Na segunda parte, argumenta-se sobre o desenvolvimento das
TICs e as formas de controle que resultam de seu desdobramento. Conclui-se que as TICs revelam novas formas de controle funcional
ao sistema capitalista em crise, revelando os inúmeros desafios enfrentados pela classe trabalhadora.
Palavras-chave: Tecnologia e dominação; TICs; Controle do trabalho.

Capital control of labor and ICTs
Abstract: This article aims to analyze the relationship between control and technology in contemporary times, especially in terms of
information and communication technologies/ICTs. To this end, we started with bibliographical research in the light of the Marxist
tradition. The first part discusses the relationship between technology and control within the framework of capital, pointing out the
increasingly destructive nature of technology as capital becomes increasingly uncontrollable in the face of the structural crisis. The second
part argues about the development of ICTs and the new forms of control that emerge as a result of their deployment. We conclude that
ICTs bring to light new forms of control that are functional to capital in a crisis scenario, revealing new challenges for the working class.
Keywords: Technology and domination; ICTs; Labor control.

Recebido em 31.03.2025. Aprovado em 29.09.2025. Revisado em 30.11.2025.

Introdução
O artigo ora exposto origina-se da síntese de pesquisas quali-quantitativas vinculadas a um projeto
desenvolvido por docente e discente em Programa de Pós-Graduação stricto sensu. Como ponto de partida da
reflexão empreendida, entende-se que o avanço do desenvolvimento capitalista regressivo, desencadeado a
partir da crise estrutural1, torna-se progressivamente incontrolável. O capital enfrenta a crise desenvolvendo
estratégias e mecanismos para lidar com suas contradições econômicas imanentes — dentre elas, a queda
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tendencial da taxa de lucro —, contudo, agrava sua dimensão destrutiva, empurrando a humanidade para
uma corda bamba, na qual o que está em jogo, diante da queda, é sua própria sobrevivência. A tecnologia,
nesse sentido, como elemento inerente à realização da produção material, torna-se cada vez mais destrutiva.
Afinal, no estado alienado das coisas no mundo do capital, o desenvolvimento das forças produtivas significa
também — e necessariamente — a barbárie da vida social.
Nesse cenário, o controle do capital sobre o trabalho, imanente à própria relação capitalista, passa
por transformações. O desenvolvimento tecnológico, no contexto da reestruturação produtiva2 visa acelerar
a realização da composição orgânica do capital, desembocando no avanço das tecnologias da informação
e comunicação (TICs), que hoje se espraiam por toda a esfera social. As TICs tornam-se, como veremos,
mecanismos centrais na produção de formas atuais de controle objetivo e subjetivo do trabalho.
Este artigo propõe, em nível de aproximação, abordar a relação entre tecnologia e controle do capital
sobre o trabalho na contemporaneidade, com especial atenção ao papel das TICs. Parte-se, inicialmente, de
uma pesquisa bibliográfica baseada em referências clássicas e contemporâneas da tradição marxista, que
contribuem, por meio da análise dos fenômenos atuais, para apreender e capturar algumas mediações que
conectam as dimensões constitutivas da reprodução do capital e do trabalho.
Na primeira parte, discute-se a relação entre desenvolvimento tecnológico, alienação e incontrolabilidade
do capital — isto é, como o avanço das forças produtivas, que necessariamente envolve o desenvolvimento
tecnológico, ocorre de forma alienada, tornando-se uma obstrução ao desenvolvimento do gênero humano. Tal
relação atinge seu ápice na contemporaneidade, em que a incontrolabilidade do capital e o consequente uso
desenfreado da tecnologia ameaçam a própria reprodução — não apenas do capital, mas também da humanidade.
Na segunda parte, discute-se o desenvolvimento das TICs e como elas impulsionam novas formas
de controle do capital sobre o trabalho no contexto da reestruturação produtiva. Tais formas de controle —
objetivas e subjetivas — intensificam não apenas a precarização do trabalho, mas também a manipulação
capitalista, para usarmos a categoria lukacsiana que expressa o controle da consciência dos trabalhadores no
capitalismo contemporâneo. Trata-se de uma mistificação da relação entre capital e trabalho, em uma era na
qual apreender as determinações da realidade se torna cada vez mais urgente.
Considera-se que, na contemporaneidade, a ofensiva do capital sobre o trabalho se intensifica. Nesse
cenário, as TICs desempenham papel estratégico na corrida capitalista para alavancar as taxas de lucro. Desse
modo, revelam formas de controle — objetivas e subjetivas — cada vez mais sutis e complexas, intensificando
a precarização do trabalho, como demonstram o surgimento de novas modalidades laborais vinculadas às
plataformas digitais e à manipulação capitalista.
Tecnologia e a incontrolabilidade do capital
O modo de produção capitalista é, em decorrência de sua própria natureza, um modo de produção
revolucionário. Isso significa dizer, como nos revela Marx (1989), que, com a consolidação da grande indústria,
do domínio das máquinas e o crescente predomínio da mais-valia relativa3 ― em suma, com a solidificação
da sociabilidade capitalista —, tem-se um desenvolvimento das forças produtivas nunca visto. Contudo,
ocorre simultaneamente uma mudança na chamada composição orgânica do capital, ou seja, na proporção
entre capital constante (investido em meios de produção) e capital variável (empregado na força de trabalho).
As raízes desse desequilíbrio repousam no maior investimento em capital constante em detrimento do
capital variável. Ao mesmo tempo em que a força de trabalho continua a se reproduzir mais rapidamente do
que é absorvida pelo processo produtivo, tem-se como resultado uma superpopulação relativa, ou exército
industrial de reserva (Marx, 1989). Desvela-se, assim, uma contradição intrínseca ao modo de produção
capitalista. Qual seria? Conforme argumenta Marx:
A acumulação de Riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo, a acumulação de miséria, tormento
de trabalho, escravidão, ignorância, brutalização e degradação moral no pólo oposto, isto é, do lado da
classe que produz seu próprio produto como capital (Marx, 1985, p. 210).

Segue-se, então, que o desenvolvimento das forças produtivas da humanidade — isto é, o desenvolvimento
científico e tecnológico — nunca atingiu o patamar que alcança na sociabilidade capitalista. Contudo, esse
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desenvolvimento, que poderia representar as condições objetivas necessárias à plena realização dos sujeitos,
transforma-se nas condições da própria barbárie humana. Leva-se às últimas consequências a contradição
que fundamenta a alienação: a tensão entre o avanço das forças produtivas e a realização plena dos sujeitos
singulares (Alcântara, 2014; Lukács, 2018a).
Isso significa dizer que a tecnologia é inevitavelmente negativa? Não. O problema reside no fato de que
essa tecnologia é desenvolvida sob o controle do capital, dentro de sua lógica, cujo objetivo último — e não
poderia ser diferente — é a acumulação e autorreprodução do capital, com todas as consequências implicadas
para a classe trabalhadora. Na contemporaneidade, tais consequências tornam-se cada vez mais destrutivas.
Certa vez, Lukács (2018b), ao discutir a alienação, trouxe um exemplo de Marx no qual este argumenta
que Aristóteles e Antitatras estariam mais próximos da verdade social última — ao conceberem, mesmo dentro
dos limites do escravismo, um papel emancipador para a máquina — do que a economia política clássica:
[...] que, em sua cega parcialidade, deixam de apreciar o papel da máquina na intensificação da exploração
no próprio presente. Aos seus olhos, portanto, um tal utopismo ingênuo está mais próximo da verdade
social última do que a apologética de um patamar mais elevado de desenvolvimento econômico (Lukács,
2018b, p. 208).

Ou seja, a economia política clássica, apologética do capitalismo, não consegue expor o papel que as
máquinas cumprem nessa sociabilidade. A partir da grande indústria, em vez de gerar mais tempo livre aos
homens, a tecnologia torna-se a coroação de seu fardo: o domínio do capital sobre o trabalho, sua subsunção
real ao capital. Nesse sentido, a ciência e o desenvolvimento tecnológico, tal como se articulam na sociabilidade
capitalista, estão subsumidos ao capital.
Para Mészáros (apud Gianna, 2021), a ciência não é, em si, responsável pelas consequências do
desenvolvimento das forças produtivas, mas tampouco é ela quem detém o poder — ainda que seu avanço
possa contribuir para a emancipação humana. Afinal:
[...] nesta forma de organizar o metabolismo social, desenvolve as forças produtivas do trabalho social de
forma centralizada, revolucionando os modos de organização do trabalho e os meios indispensáveis para
isso. Conceber a ciência como parte da divisão social e hierárquica do trabalho instaurada pelo capital
é o que nos permite superar tanto a visão “imanente” da ciência, com um desenvolvimento totalmente
autônomo, como a visão “heroica”, que a coloca como a nova força motriz da transformação social,
ignorando seus nexos materiais e institucionais (Gianna, 2021, p. 129).

Abordar o controle do capital sobre o trabalho pressupõe compreender o caráter incontrolável do capital.
Paniago (2012), com base em Mészáros, afirma que expansão e acumulação são a razão de ser do capital; para
isso, ele busca se apropriar, acima de tudo, do ser social e da natureza, a fim de se reproduzir continuamente.
A incontrolabilidade do capital repousa justamente na relação antagônica entre capital e trabalho — afinal,
essa relação pressupõe o controle do capital sobre o trabalho, e não o contrário. Ou seja, não há nada que
controle o capital.
Paniago (2012) explica que, há alguns séculos, a incontrolabilidade do capital foi fundamental para que
a humanidade transitasse do feudalismo ao capitalismo. Hoje, porém, essa mesma incontrolabilidade põe em
risco não apenas o capitalismo, mas toda a humanidade. Diante da crise estrutural do capital — na qual este
ativa seus limites absolutos4 e não encontra saídas fáceis —, não apenas seu caráter destrutivo se torna mais
evidente, como também emerge uma crise de controle (Paniago, 2022).
Por sua natureza incontrolável, é difícil identificar algum tipo de controle que se personifique e expresse
as vontades do capital. Como explica Mészáros (2002), o objetivo último do capital é a acumulação ampliada,
que por vezes coincide com personificações de seus interesses. Contudo, tais personificações são elas mesmas
determinadas — são “determinantes determinados” (Paniago, 2012, p. 142). Ou seja:
Em poucas palavras, as personificações do capital podem apenas habilitar-se a executar as mutáveis
determinações que emanam do sistema como um todo e tirar proveito, se agirem de forma mais ou menos
eficientes, quando essas coincidem com seus interesses particulares. Não passam, portanto, como vimos
anteriormente, de pseudo-sujeitos do processo de autorreprodução do capital (Paniago, 2012, p. 142).
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Portanto, também as personificações dos interesses do capital são incapazes de controlá-lo como um todo
— o que não impede que, ao longo da história do capitalismo, vários estudiosos nelas encontrem um suposto
controle dessa sociabilidade. De Adam Smith, com a “mão invisível” do mercado, até os dias atuais, há diversas
personificações do capital que seus apologistas utilizam para negar sua incontrolabilidade. Todavia, “jamais
puderam justificar como, mesmo com todas as adaptações de comando, o sistema continuava a surpreender com
sua capacidade de frustrar as expectativas dos capitalistas de comando no momento” (Paniago, 2012, p. 145).
Dito isso, Adam Smith, estudioso da economia política clássica, não consegue explicitar a base real
da incontrolabilidade do capital — que não é senão a separação entre produção e controle. O capital é, por
natureza, incontrolável; apenas o trabalho é passível de subordinação e controle (Paniago, 2012).
A incontrolabilidade emerge, portanto, do domínio do capital sobre o trabalho, o que implica que a
questão do controle — e, consequentemente, da incontrolabilidade — só pode ser resolvida com a superação
da relação capital x trabalho. “Precisamente porque a única alternativa realmente viável para o incontrolável
modo de controle do capital devia centrar-se no trabalho — e não nos variados postulados utópicos da
teoria econômica burguesa, como a benevolente ‘mão invisível’ de Adam Smith [...]” (Mészáros, 2002
apud Paniago, 2012).
Nesse sentido, o capital torna-se cada vez mais destrutivo e, ao mesmo tempo, cada vez mais incontrolável.
Conforme Mészáros (2017, p. 58, grifo do autor): “O sistema do capital é antagônico até o mais fundo de
seu âmago, por conta da subordinação estrutural hierárquica do trabalho ao capital que usurpa totalmente
— e deve sempre usurpar — o poder de decisão”. A tecnologia é, portanto, reflexo do caráter incontrolável
e destrutivo do capital. Pensemos na tecnologia desenfreada que contribui para o colapso climático que
vivemos hoje; na tecnologia utilizada, neste exato momento, no genocídio palestino, no bojo do complexo
militar-industrial; ou nas novas tecnologias que intensificam a precarização do trabalho e o desemprego —
como veremos no próximo tópico.
Então, o que podemos fazer com o capital, se não podemos controlá-lo ou reformá-lo? Ora, a única
saída — que é também o caminho que leva ao início da real história humana — é a superação do capital.
As TICs e as novas formas de controle do capital sobre o trabalho
Segundo Souza (2017, p. 25), o controle do capital sobre o trabalho visa assegurar três dimensões
fundamentais: “[...] garantir a produção, intensificar a acumulação e controlar as crises resultantes dessa
dinâmica”. Esse controle é inerente ao modo de produção capitalista e se manifesta tanto de forma objetiva
quanto subjetiva sobre o trabalhador.
A partir de Gorz, Souza (2017) desdobra sua argumentação demonstrando como o modo de produção
capitalista pressupõe o despotismo da fábrica — ou seja, a subordinação do trabalhador à máquina e ao controle
do capital sobre o trabalho. A essa dinâmica soma-se a questão da alienação: aquilo que é criado pelo próprio
homem — seja a fábrica, seja o produto de seu trabalho — aparece a ele como algo estranho, que o domina.
A reestruturação produtiva, a partir da década de 1970, trouxe à tona novas formas de controle, mais
sutis e complexas. Para a autora, “a reestruturação capitalista, na atualidade, redireciona formas de controle
do capital que, embora utilizem o discurso do avanço tecnológico, do envolvimento, da cooperação e do bemestar, ampliam, sem dúvida, a exploração do trabalhador” (Souza, 2017, p. 43).
Essas novas formas de controle se entrelaçam às chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação
(TICs), que se desenvolvem de maneira cada vez mais pungente na contemporaneidade, sob o domínio do
capital financeiro. As empresas, em busca de ampliar seus lucros, investem cada vez mais em tecnologia
informacional e digital (Antunes, 2023). Dessa forma, as TICs se estendem por todos os poros da vida social,
tornando-a essencialmente entrelaçada ao mundo digital.
As TICs não são um fenômeno exclusivo do capitalismo do século XXI. Na verdade, sua expansão
ocorre especialmente a partir da década de 1970 (Pinheiro; Souza, 2023). Não é, portanto, mera coincidência
que esse crescimento se dê paralelamente à crise estrutural do capital, afinal:
[...] as TICs se configuram como parte constitutiva das estratégias do capital em crise estrutural para que
haja o restabelecimento de suas taxas de lucro, seja por meio da intensificação e expansão da exploração,
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seja pela flexibilização e precarização do trabalho, marcado pela instabilidade, intermitência e insegurança,
de modo a colocar milhões de pessoas no desemprego (Pinheiro; Souza, 2023, p. 103).

Nesse movimento, por mediação das TICs, expande-se ainda mais a esfera de serviços, ao passo que cada
vez mais atividades da vida privada se tornam formas de trabalho abstrato5. As TICs, assim, inserem-se não
apenas nos trabalhos tradicionais — cada vez mais mediados pela tecnologia —, mas também impulsionam
o surgimento de novas modalidades laborais vinculadas às plataformas digitais. É nesse contexto que emerge
o fenômeno da uberização. Para Ludmila Abílio (2020), a uberização permite que, ao mesmo tempo em que
o trabalho seja dispersado, o controle sobre ele seja centralizado com o auxílio das plataformas digitais e
dos algoritmos.
Segundo a autora, trata-se de uma tendência atual que materializa fenômenos que vêm ocorrendo há
décadas no mundo do trabalho — especialmente em países periféricos —, mas que agora se espraiam em níveis
globais, consolidando: “[...] uma nova forma de controle, gerenciamento e organização do trabalho, que está
amplamente relacionada ao trabalho mediado por plataformas digitais, mas não se restringe a ele; trata-se de
uma tendência global, aqui compreendida como uberização” (Abílio, 2020, p. 11).
Ainda que pareça difícil identificar quem exerce o controle sobre o trabalho no contexto da uberização,
Abílio aponta elementos que revelam que são, de fato, as empresas que o exercem. Afinal, são elas que definem
o preço do serviço para o consumidor, o valor da remuneração para o trabalhador e a distribuição das tarefas.
Consolida-se, assim, um trabalhador gerenciado por algoritmos, disponível a todo instante para o capital —
um trabalhador just-in-time (Abílio, 2019).
Nesse novo cenário, parte do gerenciamento que antes cabia à chefia é transferido ao próprio trabalhador.
Mais do que isso, transfere-se também a ele parte dos custos da realização do serviço (Abílio, 2020). Surge,
então, a gestão algorítmica como nova faceta do mundo do trabalho, tendo como estratégia a gamificação, o
que permite que o trabalho se torne cada vez mais disperso e sua gestão, cada vez mais concentrada (Oliveira,
2021, p. 5 apud Lara; Salezio dos Santos, 2023, p. 41).
Nesse sentido, as TICs, como argumentam Pinheiro e Souza (2023, p. 108), revelam formas mais sutis
de controle objetivo e subjetivo sobre o trabalho. O capital impõe a mistificação da subordinação do trabalho
por meio de comandos que já não se personificam nas figuras dos supervisores, mas se realizam por meio de
sistemas informacionais, que passam a estabelecer a dinâmica de como o trabalho deve ser executado. Ou
seja, as relações de trabalho tornam-se cada vez mais determinadas por um conjunto de comandos digitaisinformacionais — ainda que programados por sujeitos singulares. Nesse âmbito:
Cumpre destacar que o(a) trabalhador(a) nessa lógica metamorfoseia-se no seu algoz, porque não consegue
mais estipular limites acerca do tempo dedicado ao trabalho; sua vida se resume ao trabalho tanto nos
setores produtivos quanto na esfera dos serviços (Pinheiro; Souza, 2023).

Além da uberização, outra categoria mobilizada por estudiosos para analisar o fenômeno das TICs no
âmbito da esfera econômica é a chamada Economia de Compartilhamento ou Economia Compartilhada. Para
Morozov (2024), essa economia permite, a partir do desenvolvimento da capacidade tecnológica do capitalismo
contemporâneo, converter mercadorias já compradas — e, portanto, já realizado o valor — em objetos rentáveis,
que, nesse aspecto, “[...] na verdade, jamais sai do mercado” (Morozov, 2024, p. 77).
Ora, com a economia compartilhada, tudo pode ser compartilhado (e monetizado): desde objetos
tangíveis — como casas — até serviços, contanto que mediados pela mercadoria dinheiro. Os argumentos dos
defensores da economia de compartilhamento vão da oposição ao consumo excessivo até supostos benefícios
ambientais (Morozov, 2024). Para o autor (2024, p. 79), essa economia aparece para os desempregados e
afetados pela estagnação econômica quase como uma varinha mágica que lhes permite monetizar o próprio
desconforto — por exemplo, alugando suas casas enquanto moram com parentes. Desse modo:
Não há como negar que a economia compartilhada pode - e provavelmente consegue — tornar mais
suportáveis as consequências da atual crise financeira. No entanto, ao lidar com as consequências, em
nada contribui para eliminar as causas. É verdade que, graças aos avanços na tecnologia da informação,
alguns de nós podem finalmente sobreviver com menos — sobretudo ao recorrer a uma distribuição
mais eficiente dos recursos existentes. Mas não há nada a celebrar: é como distribuir tampões de ouvido
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para que todos lidem com o ruído intolerável da rua em vez de fazer algo para acabar com o barulho
(Morozov, 2024, p. 79).

As TICs são, nesse sentido, um dos principais motores da precarização e informalização do trabalho na
contemporaneidade. Como revela Antunes (2023, p. 31, grifos do autor):
Assim, os “novos” traços que caracterizam o trabalho uberizado são por demais evidentes: não há mais
limites nem de tempo, nem de jornada de trabalho; a separação entre tempo de labor e tempo de vida está em
desaparição; as práticas laborativas são cada vez mais desregulamentadas; os direitos do trabalho sofrem um
processo de corrosão cotidiana e a justiça do trabalho, quando acerta, se vê tolhida pelas decisões supremas. A
intensidade e os ritmos de trabalho são exercitados ao limite, sendo que as mistificações subjacentes ao trabalho
que deixou de ser trabalho, ao assalariamento que milagrosamente se converteu em “empreendedorismo”
em “autonomia”, são por demais evidentes.
Alguns dados corroboram a argumentação de Antunes, com a qual concordamos: quanto ao trabalho dos
motoristas por aplicativos, predomina o segmento masculino. Em 2022, segundo dados da Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios (PNAD) (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023), das 1,5 milhão
de pessoas que trabalhavam por meio de aplicativos no Brasil, 81,3% eram homens. Destaca-se que 70,1%
dos trabalhadores plataformizados estão na esfera da informalidade. No que se refere ao recorte racial dos
motoristas das plataformas digitais, uma pesquisa realizada pelo IBGE (2022) durante o período pandêmico
revela que a maioria é preta ou parda: 59,2%, contra 40% de brancos. Entre os entregadores de aplicativos
como iFood e Uber Eats, os dados apontam 60% de pretos ou pardos e 38,5% de brancos. O IBGE também
revela que 97,3% dos motoristas por aplicativo e 84% dos entregadores afirmaram que é o aplicativo que
determina o valor a ser recebido; e 87,2% e 85,3%, respectivamente, que são os aplicativos que determinam
os clientes. Em relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 2021, constatou-se que 79%
dos trabalhadores de táxi por aplicativo e 74% dos entregadores entrevistados ao redor do mundo sentem-se
estressados pelas condições de trabalho — devido ao pagamento insuficiente, à pressão por eficácia e rapidez,
à escassez de empregos, aos horários prolongados, entre outros fatores. Tais condições potencializam os
riscos durante o trabalho, especialmente pela ausência de proteção social.
O aumento desenfreado da precarização e da informalidade do trabalho contemporâneo, impulsionado
pelas TICs, já era anunciado pelo fenômeno da terceirização no contexto da reestruturação produtiva. As
TICs, no entanto, aceleram ainda mais esse processo. Terceirização e uberização, segundo Filgueiras e Dutra
(2023), se diferenciam: a primeira pressupõe um intermediário; a segunda, não. A plataforma digital não se
configura como intermediária, mas como gestora direta da relação de trabalho. Ainda assim, ambas podem ser
empregadas simultaneamente e são similares na medida em que contribuem para mistificar a desregulamentação
do trabalho que produzem (Filgueiras; Dutra, 2023).
Sobre o último aspecto apontado por Antunes — isto é, o do “empreendedorismo” —, é importante
notar que as TICs não apenas trazem à tona novas formas de controle objetivo. Não se pode desconsiderar o
controle subjetivo promovido pelas TICs, que, na esfera do trabalho, manipulam o trabalhador para que se
envolva cada vez mais com as metas de sua atividade. Capturam, assim, a subjetividade dos sujeitos a ponto
de estes não se reconhecerem mais como parte da classe trabalhadora. Tornam-se, na esfera dessa mística
alienada, “empreendedores”, encorajados pela manipulação capitalista que, como nos revela Lukács:
[...] a manipulação do consumo não consiste, como se pretende oficialmente, no fato de querer informar
exaustivamente os consumidores sobre qual é o melhor frigorífico ou a melhor lâmina de barbear; o que
está em jogo é a questão do controle da consciência (Lukács, 2014, p. 67).

Desse modo, a manipulação capitalista emaranha a relação capital x trabalho de tal forma que não aparece
de maneira clara quem detém o controle — inevitavelmente, no bojo das relações capitalistas, é o capital.
No caso das modalidades de trabalho nas plataformas digitais, esse controle é personificado nas big techs. A
manipulação capitalista desemboca, hoje, no impulsionamento de discursos ideológicos não muito distantes do
que, com humor, escreve Morozov: “[...] vamos todos ser programadores (a favor dos Estados Unidos!) pelas
manhãs, à tarde dirigir carros para a Uber e à noite abrir nossas cozinhas como [nos] restaurantes ― cortesia
do Airbnb” (Morozov, 2024, p. 94).
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Controle do capital sobre o trabalho e as TICs

Considera-se que, embora a dimensão coercitiva do controle sobre o trabalho exercido pelo capital
continue agudamente presente, ela é mistificada por um conjunto de consensos objetivos e subjetivos que
se intensificam e se espraiam com o desenvolvimento das TICs (Pinheiro; Souza, 2023). Desses consensos:
Uns se tornam condição sine qua non para a objetivação do trabalho pela exigência do contínuo
desenvolvimento tecnológico; outros são produzidos subjetivamente e considerados imprescindíveis para a
reprodução ideológica da sociedade atual, através do ideário de “autonomia” do trabalhador, presente nas
concepções de empreendedorismo, de terceirização e da liberdade na virtualização do trabalho (Pinheiro;
Souza, 2023, grifo dos autores).

Em um mundo cada vez mais controlado, mediado e gerenciado pelas TICs, torna-se urgente libertar a
ciência e a tecnologia das garras do capital, de modo que o que resulta do desenvolvimento do próprio gênero
humano se volte para ele não como barbárie, mas como potência.
Considerações Finais
Lukács, em entrevista a Leo Kofler, apontou o preconceito de considerar que as determinações
tecnológicas estariam ontologicamente sempre a serviço do capital. Ora, em uma realidade na qual a
tecnologia aparece, de fato, cada vez mais como destruição, esse preconceito só se intensifica. Mas, tal
como Lukács (2014, p. 69) o faz, é imprescindível lembrarmos que as posições tecnológicas no capitalismo
não são inerentes à humanidade.
Desse modo, o desenvolvimento tecnológico aparece inserido na lógica capitalista, expressando uma
relação de alienação na qual — tal como o monstro de Frankenstein que se volta contra seu criador — aquilo
que é criado pela humanidade, a tecnologia, retorna como sua própria condição de barbárie. As tecnologias
da informação e comunicação, nesse sentido, não escapam desse destino: são resultado do desenvolvimento
tecnológico sob o controle do capital e, por isso, estão a serviço de seus interesses, perpetuando o controle
do capital sobre o trabalho.
Nesse sentido, positivo que possa parecer o uso da tecnologia no âmbito da sociabilidade capitalista, ele
sempre esbarra em limites. Afinal, enquanto o modo de realizar o trabalho for alienado, o desenvolvimento
das forças produtivas significará também miséria — uma pedra no caminho do pleno desenvolvimento dos
sujeitos. Em suma, enquanto o capital detiver o controle sobre o trabalho — e não os trabalhadores —, a
tecnologia continuará sendo usada para exploração, dominação e controle da classe trabalhadora. As TICs são
reflexo desse processo, intensificando, como vimos, a ofensiva do capital sobre o trabalho e desenvolvendo
novas formas, ainda mais complexas, de controle.
Superar o capital é, então, pressuposto para que a tecnologia — inclusive as próprias TICs — possa
significar algo diferente da intensificação do estado alienado das coisas. Que possa, enfim, representar a
possibilidade concreta de livre desenvolvimento dos sujeitos singulares, sem a mediação da exploração do
trabalho abstrato.
Referências
ABÍLIO, L. C. Uberização: a era do trabalhador just-in-time? Estudos avançados, v. 34, n. 98, jan./abr. 2020. DOI: https://doi.org/10.1590/
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Rev. Katálysis., Florianópolis, v.28, e105978. 2025 ISSN 1982-0259

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Rebeca Carolina Santos Maceno e Reivan Marinho de Souza
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Notas
1

Para Mészáros (2011), a crise estrutural de 1970 tem como características principais: caráter universal, alcance global, escala de
tempo permanente e desdobrar rastejante.

2

Para Giovanni Alves (2018, p. 10), a reestruturação produtiva, é uma reestruturação sociorreprodutiva do capital, envolvendo não
só a produção, mas sim toda esfera da reprodução social.

3

A mais-valia relativa é uma forma de produzir mais-valia na qual, a partir do desenvolvimento tecnológico e da intensificação do
trabalho, diminui-se o tempo de trabalho socialmente necessário para aumentar a produção das mercadorias, o que, consequentemente,
as barateia e aumenta a mais-valia apreendida pelo capitalista, sem que seja necessário estender a jornada de trabalho, como no
caso da mais-valia absoluta (Marx, 1985).

4

“Todo sistema de reprodução sociometabólica tem seus limites intrínsecos ou absolutos, que não podem ser transcendidos sem
que o modo de controle prevalecente mude para um modo qualitativamente diferente” (Mészáros, 2002, p. 216).

5

O trabalho abstrato é a forma alienada de realizar o trabalho predominante na sociabilidade capitalista. Consiste na produção
e reprodução da mais-valia a partir da exploração da força de trabalho, ao passo que os trabalhadores trabalham a mais do que
o tempo socialmente necessário para a produção dos meios necessários à sua própria reprodução, manifestos em seu salário.
É desse valor novo a mais produzido pela força de trabalho que o capitalista se apropria. Está aí o fundamento da mais-valia
(Marx, 1985). O trabalho abstrato é mais amplo do que o trabalho útil concreto, condição inerente ao ser humano, porque abarca
atividades para além do intercâmbio com a natureza, contanto que se produza/reproduza mais-valia (Lessa, 2016).

Rebeca Carolina Santos Maceno
rebeca.maceno@fsso.ufal.br
Mestranda em Serviço Social pela Universidade Federal de Alagoas.
Reivan Marinho de Souza
reivan.souza@fsso.ufal.br
Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal de Alagoas.
Universidade Federal de Alagoas/UFAL
Av. Principal da UFAL – Faculdade de Serviço Social, Cidade Universitária
Maceió – Alagoas – Brasil
CEP: 57072-970
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Controle do capital sobre o trabalho e as TICs
Agradecimentos:
Não se aplica.

Consentimento para publicação:
As autoras consentem a publicação do presente manuscrito.

Agência financiadora:

Conflito de interesses:
Não há conflito de interesses.

Não se aplica.
Contribuições das autoras:
A primeira autora contribuiu na concepção, levantamento
bibliográfico, elaboração e revisão do manuscrito. A segunda
autora contribuiu na concepção, levantamento bibliográfico,
elaboração e revisão do manuscrito.
Aprovação por Comitê de Ética e consentimento para
participação:
Não se aplica.

Disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do
documento.
Editores Responsáveis
Mailiz Garibotti Lusa – Editora-chefe
Claudemir Osmar da Silva – Comissão Editorial

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