Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers.
Autores: Paulo Victor Rodrigues de Azevedo Lira (Cerest- PE); Diego de Oliveira Souza (UFAL); Ângela Santana do Amaral (UFPE); Idê Gomes Dantas Gurgel (Lasat); Maurício Barbosa de Lima (Sinttel-PE); Adriana Guerra Campos (Cerest). Link: https://www.saudeemdebate.org.br/sed/article/view/10502
10502.pdf
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ARTIGO ORIGINAL
Sofrimento psíquico, intensificação do
trabalho e desgaste mental: o trabalho em
Call Centers
Psychological suffering, work intensification and mental exhaustion
and: Work in Call Centers
Paulo Victor Rodrigues de Azevedo Lira1,5, Diego de Oliveira Souza2, Angela Santana do Amaral3,
Idê Gomes Dantas Gurgel1, Maurício Barbosa de Lima4, Adriana Guerra Campos1,5
DOI: 10.1590/2358-28982025E210502P
1 Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz Pernambuco),
Instituto Aggeu Magalhães
(IAM), Laboratório Saúde,
Ambiente e Trabalho
(Lasat) – Recife (PE),
Brasil.
paulo.alira@gmail.com
2 Universidade Federal de
Alagoas (Ufal), Programa
de Pós-Graduação em
Serviço Social (PPGSS)
– Campus Arapiraca –
Arapiraca (AL), Brasil.
3 Universidade Federal
de Pernambuco (UFPE),
Programa de PósGraduação em Serviço
Social (PPGSS) – Recife
(PE), Brasil.
4 Sindicato dos
Trabalhadores em
Telecomunicações de
Pernambuco (Sinttel-PE) –
Recife (PE), Brasil.
5 Secretaria de Saúde do
Estado de Pernambuco
(SES-PE), Centro de
Referência em Saúde do
Trabalhador (Cerest) –
Recife (PE), Brasil.
RESUMO A pesquisa analisou como o sofrimento psíquico relaciona-se com a organização do trabalho,
sua intensificação e o desgaste mental dos teleoperadores. Trata-se de um estudo transversal, descritivo,
realizado com teleoperadores de duas empresas localizadas na região metropolitana de uma capital nordestina. Ao todo, foram aplicados 364 questionários e autoaplicados 445 Self-Reporting Questionnaire-20
com objetivo de caracterizar aspectos sociais, do trabalho e da saúde, assim como a predisposição aos
transtornos mentais comuns. Os dados foram analisados a partir de uma abordagem crítica, considerando
a dialética singular-particular-universal. Os achados indicam que a intensificação do trabalho, a baixa
autonomia e a instabilidade empregatícia caracterizam a realidade dos teleoperadores, resultando em
impactos significativos na saúde, tais como os que caracterizam os transtornos mentais comuns. Associado
a isso, o sofrimento psíquico atua como instrumento potencializador da organização do trabalho, por
meio de sua intensificação, e pode levar ao desgaste mental dos trabalhadores, sendo indicativo dos altos
índices de afastamento e adoecimento mental na categoria, bem como da grande rotatividade no setor.
Este estudo ressalta a urgência de uma abordagem crítica sobre a organização do trabalho que questione
a estrutura do sistema produtivo.
PALAVRAS-CHAVE Saúde mental. Transtornos mentais. Saúde ocupacional. Riscos ocupacionais.
ABSTRACT The research analyzed how psychological distress is related to the organization of work, its
intensification and the mental exhaustion of telemarketers. This is a cross-sectional, descriptive study,
carried out with telemarketers from two companies located in the metropolitan region of a northeastern
capital. In total, 364 questionnaires and 445 Self-Reporting Questionnaires-20 were applied with the aim of
characterizing social, work and health aspects, as well as the predisposition to Common Mental Disorders.
The data were analyzed from a critical approach, considering the singular-particular-universal dialectic.
The findings indicate that work intensification, low autonomy and job instability characterize the reality of
telemarketers, resulting in significant impacts on health, such as those that characterize common mental
disorders. Associated with this, psychological distress acts as an instrument that enhances the organization
of work, through its intensification, and can lead to mental exhaustion among workers, indicating the high
rates of absence and mental illness in the category, as well as the high turnover in the sector. This study
highlights the urgency of a critical approach to the organization of work that questions the structure of the
production system.
KEYWORDS Mental health. Mental disorders. Occupational health. Occupational risks.
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative
Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer
meio, sem restrições, desde que o trabalho original seja corretamente citado.
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
2
Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
Introdução
A partir da década de 1970, com o processo de
reestruturação produtiva, houve ampliação do
setor de serviços, inserção de novas tecnologias, novas relações de trabalho e modificações
na forma de organização do trabalho1,2. Esse
processo está diretamente ligado às mudanças
na esfera político-econômica, com adoção de
políticas neoliberais e avanço da precarização
do trabalho3.
No Brasil, essas alterações ganharam intensidade a partir da década de 1990, com a
imposição de diretrizes por parte dos organismos financeiros internacionais, que, inclusive, determinou uma contrarreforma do
Estado brasileiro4. Um dos marcos da adoção
de políticas neoliberais no País foi a privatização da Telecomunicações Brasileiras S.A. em
19985. De forma geral, além das modificações
tecnológicas no setor, houve mudanças na
organização do trabalho, na remuneração, na
atuação sindical e no perfil dos trabalhadores6.
Com a articulação entre os serviços de telecomunicações e o uso da informática, expandiram-se as Centrais de Teleatividades (CTA),
popularmente chamadas de Call Centers. A
ampliação dessas centrais se deu majoritariamente por meio da terceirização dos serviços,
que aumenta a geração de empregos, ainda
que marcados pela precarização. O trabalho
pouco qualificado, rotinizado, com adoção de
scripts e com gerenciamento ativo por meio
de supervisores e softwares caracteriza a atividade nas CTA7–10.
Em 2023, estimava-se um quantitativo de
1,4 milhão de trabalhadores empregados no
setor11. Grande quantitativo desses empregos
estão nas quatro maiores empresas de Call
Center do País, o que indica a forte centralização e controle do mercado12.
O perfil geral desses trabalhadores envolve
jovens, na maior parte mulheres, pardas ou
pretas, com ensino médio completo e ensino
superior em andamento e com remuneração
entre um e dois salários mínimos8,13. O setor
também emprega importante parcela de
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
trabalhadores LGBTQIAPN+14, configurando parte de fração da classe trabalhadora, o
cibertariado15.
A nova morfologia do mundo trabalho
articulou precárias condições de trabalho
com novas e velhas formas de contratação
e organização do trabalho16. Compreender
esse processo exige o entendimento das repercussões do trabalho na vida dos trabalhadores antes mesmo da expressão patológica
em seus corpos. Por isso, se faz necessária a
compreensão do desgaste da força de trabalho,
entendido como a perda potencial ou efetiva
da capacidade biopsíquica do trabalhador e do
sofrimento psíquico, que considera as defesas
mentais dos trabalhadores ante os processos
que atentam contra a identidade desses e a
realização no trabalho17,18.
Vários impactos à saúde dos teleoperadores
são relatados, com adoecimentos de ordem
biopsíquica8,19. Algumas dessas questões estão
associadas à natureza da atividade desenvolvida, mas não devem ser dissociadas das condições históricas e sociais em que o trabalho
é realizado; portanto, faz-se necessária uma
abordagem crítica de forma a relacionar o
processo de trabalho com as necessidades de
valorização do valor2,17. É imprescindível o
estudo baseado na concepção de desgaste, com
enfoque no desgaste mental, que considere
aspectos relativos à organização do trabalho,
sobretudo à intensificação deste e sua relação
com o sofrimento psíquico2,17.
Este artigo tem por objetivo analisar processos que envolvem o sofrimento psíquico, a
intensificação do trabalho e o desgaste mental
a partir de dois Call Centers localizados na
região metropolitana de um estado nordestino.
Material e métodos
A pesquisa é fruto da parceria de instituição pública de pesquisa com o Centro de
Referência Estadual em Saúde do Trabalhador
e o sindicato da categoria. A parceria salienta a
visão da Vigilância em Saúde do Trabalhador,
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
por meio da intersetorialidade e da participação ativa dos trabalhadores20,21.
Trata-se de estudo transversal, descritivo.
As informações foram coletadas com trabalhadores de teleatendimento em dois Call Centers
(Empresa A e Empresa B) localizados na região
metropolitana de um estado nordestino, no
período de julho de 2017 a maio de 2018. A
amostragem se deu por conveniência, respeitando o cálculo amostral e o diferente quantitativo de entrevistas aplicadas nos turnos de
trabalho. Os trabalhadores foram abordados
nas portas das empresas.
Como critério de inclusão, foram considerados: desempenhar a função de teleoperador,
ser maior de 18 anos, que se apresente voluntariamente para responder ao questionário.
Como critério de exclusão, foi considerado
estar em período de férias ou afastado do
trabalho. Tendo em conta o número total de
teleoperadores do estado à época (estimados
30 mil) e das empresas A (estimados 13 mil)
e B (estimados 5 mil), optou-se pelo cálculo
amostral por meio de um plano de amostragem
estratificada por empresas, com margem de
erro de 5% para cada Intervalo de Confiança
(IC) de 95%. A amostra final ficou definida
em 355 teleoperadores, sendo a empresa A,
n = 270, e a empresa B, n = 85. Seguindo esse
critério, foram aplicados 364 questionários-entrevista (268 na empresa A e 96 na empresa
B) e 445 Self-Reporting Questionnaire-20 (SRQ20) (282 na empresa A e 163 na empresa B).
Instrumentos e coleta de dados
Foi aplicado questionário composto por 65
questões, categorizadas em quatro blocos: 1)
perfil do entrevistado; 2) aspectos sociais; 3)
aspectos do trabalho; e 4) aspectos da saúde,
tendo como base a enquete operária22. Tal
questionário teve o objetivo de construir o
perfil socioeconômico, descrever as relações e
a organização do trabalho e identificar as morbidades referidas pelos/as trabalhadores/as.
O SRQ-20, questionário validado em
populações urbanas brasileiras23,24, foi escolhido por poder sugerir a presença de Transtorno
Mental Comum (TMC), sendo composto de
20 questões, das quais 4 são sobre sintomas
físicos, e 16, sobre distúrbios psicoemocionais.
Os escores obtidos estão relacionados com a
probabilidade de presença de transtorno não
psicótico, variando de 0 (nenhuma probabilidade) a 20 (extrema probabilidade), no qual
cada questão tem valor de 1 ponto. As respostas
que apresentaram escore ≥ 7 foram consideradas como indicadores de possível sofrimento
mental25. O seu preenchimento foi realizado de
forma autoaplicada25. O seu preenchimento foi
realizado de forma autoaplicada.
Análise de dados
Os dados foram digitados e exportados para
o software Statistical Package for the Social
Sciences (SPSS, versão 15, 2008, SPSS Inc.,
Chicago, Illinois EUA). Para a caracterização
da população, foi utilizada estatística descritiva. A análise descritiva incluiu a verificação
das condições de vida, de trabalho e adoecimento, por meio do perfil socioeconômico,
das relações e organização do trabalho e da
predisposição ao TMC. Os entrevistados foram
identificados a partir das siglas: E1, E2, E3,
E4, E5.
Os dados foram analisados a partir do materialismo histórico-dialético considerando
os contextos históricos sociais em que esses
processos estão inseridos, ancorados na dialética singular-particular-universal25.
Na dimensão universal/geral, foram analisadas a lógica de acumulação capitalista, a
reprodução social, o processo geral de flexibilização e precarização do trabalho. Com
relação à dimensão particular, utilizaram-se
as categorias classe, gênero, raça, orientação
sexual, articulando as questões materiais e
simbólicas que determinam os modos de vida e
as condições de saúde do grupo de trabalhadores estudado, como a organização do trabalho,
a intensificação deste, o processo de trabalho,
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
3
4
Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
a jornada de trabalho, o sofrimento psíquico
e o desgaste mental. Na dimensão singular/
individual, foram considerados indivíduos e
famílias, seu estilo de vida e cotidiano; o adoecimento se expressará individualmente nessa
dimensão. Esta análise ancora-se na abordagem da Epidemiologia Crítica26. Cabe destacar
que essas dimensões, apesar de apresentarem
um caráter hierárquico, não são estáticas, logo,
articulam-se dialeticamente e possuem autonomia relativa nessa hierarquia26.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê
de Ética em Pesquisas do Instituto Aggeu
Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz, sob o
CAAE nº 71489517.9.0000.5190 com número de
Parecer Consubstanciado do Comitê de Ética
e Pesquisa (CEP) 4.199.439. A pesquisa atende
aos requisitos éticos presentes na Resolução nº
466, de 12 dezembro de 201227, e na Resolução
nº 510, de 7 de abril de 201628.
Resultados e discussão
Breve caracterização dos(as)
trabalhadores(as)
A força de trabalho nas empresas era caracterizada por trabalhadores jovens, entre 18 e 24
anos de idade (61,3%); pardos (49,5%) e pretos
(21,2%) representaram a maior parte (70,7%); e
66,9% dos entrevistados eram do sexo feminino. O grau de escolaridade declarado foi majoritariamente o ensino médio completo (51,2%),
seguido pelo superior incompleto (28,7%). A
maior parte possuía moradia própria (68,9%)
e obtinha remuneração máxima de um salário
mínimo (78%). Mais informações sobre o perfil
sociodemográfico são apresentadas na tabela 1.
Tabela 1. Questionário-entrevista: Aspectos sociodemográficos dos entrevistados (n = 364)
Variável
Categoria
n
%
Idade (anos)
18-24
223
61,3
25-31
93
25,5
32-40
38
10,4
41-50
9
2,5
51-60
1
0,3
Feminino
243
66,9
Masculino
120
33,1
Cisgênero
354
97,3
Transgênero
7
1,9
Heterossexual
305
84,3
Homossexual
38
10,4
Bissexual
19
5,2
Assexual
0
0
Branca
73
20,1
Preta
77
21,2
Amarela
29
8
Sexo
Identidade de gênero
Orientação sexual
Raça/cor
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
Tabela 1. Questionário-entrevista: Aspectos sociodemográficos dos entrevistados (n = 364)
Variável
Estado civil
Possui Filhos
Escolaridade
Atividade além do trabalho
Qual atividade
Categoria
n
%
Parda
180
49,5
Indígena
5
1,4
Solteiro
253
77,1
Casado
67
20,4
Separado
1
0,4
Divorciado
7
2,1
Viúvo
0
0
Sim
113
31
Não
213
58,5
Ignorado/Branco
38
10,4
Ensino fundamental incompleto
0
0
Ensino fundamental completo
4
1,1
Ensino médio incompleto
4
1,1
Ensino médio completo
186
51,2
Curso técnico incompleto
16
4,4
Curso técnico completo
22
6,1
Ensino superior incompleto
104
28,7
Ensino superior completo
24
6,6
Pós-graduação
3
0,8
Ignorado/Branco
1
0,3
Sim
145
40,3
Não
215
59,7
Ignorado/Branco
4
1,1
Outro emprego
37
25,2
Estudo
105
71,4
1
0,7
Outro emprego e estudo
Instituição estudo
Moradia
Principal gasto
Outro
4
2,7
Pública
10
12,7
Privada
68
86,1
Própria
250
68,9
Alugada
100
27,5
Cedida
13
3,6
Alimentação
205
61,2
Saúde Privada
7
2,1
Estudo
41
12,2
Previdência Privada
1
0,3
Vestuário
10
3
Lazer
8
2,4
Aluguel
41
12,2
Luz/Água
11
3,3
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6
Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
Tabela 1. Questionário-entrevista: Aspectos sociodemográficos dos entrevistados (n = 364)
Variável
Tempo livre
Categoria
n
%
Transporte
11
3,3
Lazer
300
82,4
Estudo
19
5,2
Trabalho doméstico
6
1,6
Lazer e estudo
32
8,8
Lazer e trabalho doméstico
4
1,1
Trabalho
2
0,5
Fonte: elaboração própria.
‘Novas’ relações de trabalho, ‘velhas’
condições e organização do trabalho
Deu-se ênfase à aparente dicotomia entre
novas/velhas relações, condições e organização do trabalho por compreender que as
alterações ocorridas contemporaneamente
conservam em sua essência a necessidade de
exploração da força de trabalho, ou seja, mais
que uma ruptura completa, existe uma relação
dialética entre novo/velho que configura o
mundo do trabalho atual29.
A expansão do trabalho nas CTA ocorreu
pari passu com o processo de terceirização
das atividades e de expansão do setor de serviços. As grandes CTA no Brasil são organizadas por grupos empresariais que oferecem
serviços a empresas de telefonia, internet, tv
por assinatura, bancos, entre outros. Dessa
forma, o serviço antes realizado por empregados contratados diretamente passou a ser
terceirizado29. De modo geral, o impacto das
terceirizações tem relação com a redução da
remuneração dos trabalhadores, o aumento da
rotatividade e as piores condições de saúde e
segurança no trabalho29,30.
As empresas A e B evidenciam essa realidade, caracterizada por empresas de grande
porte, distribuídas em território nacional e
que ofertam telesserviços por meio da terceirização. No caso deste estudo, o telesserviço
foi contratado principalmente por empresas
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
de telefonia, internet e tv a cabo (73,9%) e por
bancos (18,3%). Sobre o processo de terceirização no sistema bancário, Venco relaciona-o
a precarização das relações de trabalho, pois:
[...] apesar dos profissionais terceirizados realizarem trabalho bancário, eles não pertencem
à categoria profissional correspondente – que
obteve, ao longo de sua trajetória, importantes
conquistas salariais e sociais31(48).
Essa condição se assemelha ao que ocorre
em outros setores que utilizam a estratégia
da terceirização dos telesserviços. Se, por um
lado, o setor gerou novos empregos, por outro,
alguns destes já existiam e migraram de uma
condição de maior estabilidade para empregos
precários. Em consonância, os novos postos são
gerados sob o signo da precarização.
Esse contingente de trabalhadores compõe
parte de uma nova fração da classe trabalhadora, marcada pelo avanço das Tecnologias
da Informação e Comunicação (TIC) e pela
precarização do trabalho, caracterizada como
‘Infoproletariado’29 ou ‘Cibertariado’15.
A maior inclusão do trabalho digital/informatizado nas CTA não o descaracteriza como
uma atividade de ação rotinizada e repetitiva. Ao contrário da promessa de um trabalho
informacional criativo, tem-se a adoção de
velhas práticas tayloristas, caracterizadas
como ‘infotaylorismo’32. As ocupações exigem
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
um conhecimento genérico de informática, o
que possibilita a alta rotatividade nos postos de
trabalho e contribui para um clima constante
de insegurança em relação ao emprego15,29. A
expressão dessa rotatividade nesta pesquisa
foi o tempo de trabalho nas empresas, uma vez
que 63,3% tinham, no máximo, 2 anos e apenas
19,8% possuíam mais de 3 anos de trabalho
nas CTA.
Braga8 analisa a alta rotatividade por meio
do ‘Ciclo do Teleoperador’ esquematizado na
figura 1.
Figura 1. Ciclo do teleoperador(a)
Fonte: elaboração própria adaptada de Braga8.
É na última fase do ciclo que as queixas
de saúde aparecem com mais ênfase. Como
a possibilidade de mobilidade de funções no
interior da empresa é limitada, em muitos
casos, a demissão é o caminho seguido.
As faces da precarização do trabalho
nas centrais de teleatividades
As informações analisadas evidenciam que não
se trata uma massa amorfa de trabalhadores, pelo
contrário, trata-se de um grupo bem definido: em
sua maioria mulheres jovens, com idade entre 18
e 24 anos (56%); não brancas (78%), com recente
entrada no mercado de trabalho. Além disso,
35% das mulheres entrevistadas estavam em sua
primeira experiência com emprego formal; 41,2%
com ensino médio concluído, e 22,2% cursando
o ensino superior. Tem-se assim a articulação
de categorias centrais relacionadas com a dimensão da (re)produção social que constituem
os trabalhadores deste estudo, que são: classe,
raça e gênero.
A desvalorização do trabalho dessas mulheres ocorre pela definição de papéis tácitos,
que seriam características ‘essencialmente
femininas’, como paciência, capacidade de
escuta e delicadeza com os clientes7. São reforçados papéis sociais, impostos pelo machismo
e patriarcado, uma vez que não seria necessária
a qualificação dessas trabalhadoras já que o
‘ser mulher’ é suficiente. Os reflexos dessa
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
7
8
Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
desqualificação são evidenciados nos baixos
salários auferidos, que estão massivamente
no grupo de até um salário mínimo (93%).
O processo de inserção precária da força de
trabalho feminina no mercado de trabalho evidencia uma hierarquização de gênero, pautada
na desqualificação do trabalho feminino e a
consequente inserção em condições e relações
mais precárias de trabalho33.
Também merece atenção o trabalho reprodutivo executado pelas mulheres. A articulação
entre a esfera produtiva e reprodutiva se dá
por uma desigual divisão sexual do trabalho,
em que mulheres acumulam as funções executadas nas CTA e o trabalho doméstico. A
jornada de trabalho nas CTA, que é limitada a
6 horas e 20 minutos, é um contributivo para
essa articulação, já que existe mais ‘tempo
livre’ para execução de outras tarefas. Estudo
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada34
evidencia a desigualdade descrita, uma vez
que as mulheres têm um acréscimo de 11 horas
semanais de trabalho doméstico e cuidado
não remunerado em relação aos homens. A
desigualdade se amplia quando estas possuem
filhos, caso de 37,9% das nossas entrevistadas.
A divisão desigual do trabalho doméstico
intensifica o desgaste das teleoperadoras, não
podendo ser ignorada em sua articulação com
o trabalho desenvolvido nas CTA. Mais do
que uma questão hermética relacionada com
o gênero, o trabalho reprodutivo cumpre relevante função no modo de produção capitalista,
garantindo a reprodução da força de trabalho
à custa da maior exploração e opressão feminina9,33. De forma a ampliar as desigualdades e a inserção em trabalhos mais precários,
ressaltam-se as questões relativas à raça, visto
que a grande maioria dessas trabalhadoras é
de origem não branca, fato que também foi
evidenciado por Braga8 em estudo nas CTA.
Igualmente, faz-se necessário discutir questões relacionadas com orientação sexual e
identidade de gênero. Entre os entrevistados,
10,4% se identificaram como homossexuais, e
5,2%, como bissexuais. Com relação à identidade de gênero, 1,9% das pessoas questionadas
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
identificaram-se como transgêneras. Segundo
a Associação Brasileira de Telesserviços14, dos
cerca de 1,4 milhão de trabalhadores do setor,
20% são da comunidade LGBTQIAPN+, e em
torno de 1% desse montante é composto por
pessoas trans. O setor é um dos grandes responsáveis pelo emprego formal da população LGBTQIAPN+, no entanto, sua inserção
também se dá em ocupações pouco qualificadas. A inserção de minorias no trabalho de
teleatendimento relaciona-se com a exclusão
desses segmentos em outras ocupações, principalmente as que necessitam de um contato
‘cara a cara’. Além disso, pela maior dificuldade
de inserção no mercado de trabalho formal,
amplia-se a subordinação destes ao emprego
nos telesserviços, mediada pela constante
sensação de insegurança7,8.
Em síntese, as características estruturais que
determinam processos de LGBTQIAPN+fobia
facilitam a inserção desses trabalhadores nas
CTA. Ao mesmo tempo, pelos gargalos evidenciados no mercado de trabalho para pessoas
LGBTQIAPN+ a ‘aceitação’ das condições e
relações precárias de trabalho nesses empregos é evidenciada.
A organização do trabalho e a saúde
dos teleoperadores
A jornada de trabalho informada pela maior
parte dos trabalhadores (82,1%) foi de 6 horas e
20 minutos (considerando intervalo de pausa).
Em 7,7% das pessoas entrevistadas, foi relatada
jornada diária de 8 horas ou mais, o que contraria legislação específica do setor35. A legislação
também prevê a adoção de pausas (2 pausas de
10 minutos), o que foi evidenciado na maior parte
das entrevistas (85,2%), no entanto, 9,1% informaram ter apenas 1 pausa, e 1,9% informou não a ter.
Quanto à duração das pausas, 90,1% informaram
duração de 10 minutos. A existência de tempo de
pausa para refeição foi relatada por 90,4% dos
entrevistados. A duração do tempo de refeição
mais relatada foi de 20 minutos (89,1%), porém,
4,6% referiram tempo de refeição inferior ao de
20 minutos (tabela 2).
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
Tabela 2. Questionário-entrevista: Aspectos relacionados ao trabalho dos entrevistados (n = 364)
Variável
Categoria
Tempo na empresa
Primeiro emprego
n
%
< 2 meses
8
2,2
2-6 meses
40
11
7-11 meses
80
22
1-2 anos
102
28,1
2 anos e 1 dia – 3 anos
61
16,8
> 3 anos
72
19,8
Ignorado/branco
1
0,3
Sim
166
45,6
Não
195
53,6
3
0,8%
Ignorado/branco
Jornada de trabalho diária
Intervalo de descanso
Quantos intervalos
Quanto tempo de intervalo
Pausa para refeição
4 horas
35
9,6
6 horas e 20 minutos
299
82,1
8 horas
20
5,5
> 8 horas
8
2,2
Ignorado/branco
2
0,6
Sim
357
98,1
Não
7
1,9
1
33
9,1
2
310
85,2
3
14
3,8
Não tem intervalo
7
1,9
10 min
328
90,1
11-20 min
22
6
21-30 min
2
0,5
Mais de 30 min
4
1,1
Não tem intervalo
7
1,9
Sim
329
90,4
Não
34
9,3
1
0,3
Ignorado/Branco
Quanto tempo para refeição
Menos de 20 min
20min
Remuneração
Mais de 20 min
23
6,9
60
16,5
1 salário mínimo
283
78
1 a 2 salários mínimos
20
5,5
1
0,3
Nenhum
131
36,1
1-3 pessoas
201
55,4
4-5 pessoas
28
7,7
> 6 pessoas
Existem metas a serem atingidas
4,6
89,1
< 1 salario mínimo
Ignorado/branco
Dependentes da remuneração
15
293
3
0,8
Sim
303
83,2
Não
61
16,8
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
9
10
Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
Tabela 2. Questionário-entrevista: Aspectos relacionados ao trabalho dos entrevistados (n = 364)
Variável
Categoria
Gratificação por meta
Sim
207
56,9
Não
156
42,8
Ignorado/Branco
1
0,3
Menos de 10%
17
8,9
10%
88
46,3
20%
40
21,1
30%
15
7,9
40%
4
2,1
50%
2
1,1
60%
1
0,5
Mais de 60%
1
0,5
Não sabe
17
8,9
Em forma de folga
3
1,6
Em forma de agrado (chocolate)
2
1,1
Gratificação no salário
n
Outras formas
Empresas que terceirizam o serviço
Existe supervisão da atividade
Forma como a supervisão é executada
17
8,9
Telefonia, internet e TV a cabo
269
73,9
Bancária
67
18,3
Elétrica
28
7,7
Sim
361
99,2
Não
1
0,3
Ignorado/branco
2
0,5
Supervisor
344
94,5
Software
14
3,8
Próprios trabalhadores
3
0,8
Ignorado/branco
Mudaria algo na organização do
trabalho
%
3
0,8
Sim
255
70,1
Não
106
29,1
3
0,8
Ignorado/branco
Fonte: elaboração própria.
Quando questionados acerca do tempo
para alimentação, 85,4% informaram que 20
minutos são insuficientes. Alguns comentários
evidenciam a insuficiência do tempo: “quem
come em 20 minutos?” (E4); “faz mal comer
rápido! Refluxo” (E2); “Só dá para engolir” (E3);
“perde-se 5 minutos na fila e mais 5 minutos
para esquentar a comida” (E1); “adquiri gastrite
pelo curto tempo para alimentação” (E5).
O trabalho supervisionado foi relatado por
99,2% dos entrevistados e reflete característica
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
marcante da organização do trabalho nos Call
Centers. As formas de supervisão mais relatadas foram: supervisor do setor (94,5%); softwares (3,8%); e os próprios trabalhadores (0,8%).
O trabalho nas CTA possui etapas bem
delimitadas, não sendo necessário grande
especialização para executá-lo. Essa característica possibilita que a atividade seja considerada ‘porta de entrada’ para o primeiro
emprego, como evidenciou-se em 45,6% dos
entrevistados. Nessa direção, por prescindir
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
de experiência prévia, a autonomia dos trabalhadores pode ser facilmente limitada, favorecendo a intensificação do trabalho por meio
da utilização de scripts e limitação de tempos
para o atendimento dos clientes.
Uma análise rápida e imprecisa sobre a
introdução de TIC nos processos de trabalho
contemporâneos pode aparentar uma qualificação desses processos mediante o enriquecimento do conteúdo das atividades. No
entanto, o processo é contraditório e se expressa de diferentes formas. No caso das CTA,
a introdução de novas tecnologias promove
uma racionalização do trabalho, associada ao
empobrecimento do conteúdo da atividade7–9.
Nas CTA, o uso das tecnologias é elemento
essencial à organização taylorista do trabalho, favorecendo a sua intensificação. Apesar
de monótono, o ritmo de trabalho exigido é
intenso, com rigoroso controle dos tempos, por
exemplo, limites estabelecidos nos chamados
Tempo Médio de Atendimento (TMA). Com
uso de softwares e scripts, as ações executadas
têm controle do seu conteúdo por parte da
gestão da empresa, assim como favorecem o
controle dos tempos utilizados em cada operação. O comportamento também é controlado,
com cobranças em relação ao atendimento,
evidenciadas por meio de expressões como
‘atender com o sorriso na voz’9,32,36,37.
Os scripts e as informações dos clientes
também são fornecidos por meio de softwares.
A fusão entre supervisão e a organização do
trabalho, com uso da informática, possibilita
eliminar a porosidade do trabalho, intensificando ao máximo o trabalho desenvolvido13,33.
Os tempos de atendimento são predefinidos; e
quando as metas, no geral relacionadas com o
TMA, não são atendidas, existe a chamada do
teleatendente para feedback (55,8%), emissão de
advertência formal (21,7%) ou suspensão (8,2%).
O controle do trabalho também é evidenciado na forma de ‘autocontrole’ ou ‘fiscalização mútua’. Dal Rosso38 destaca esse tipo
de controle em empresas de telefonia, como
também foi identificado. Com essa prática, há
uma internalização das regras e objetivos da
empresa, criando um cenário de gerenciamento mútuo pelos próprios trabalhadores. Outra
característica do autocontrole do trabalho
“baseia-se no estado permanente de poder ser
controlado. [...] Pois ter medo de ser vigiado é
vigiar-se a si mesmo”18(101–102).
Assim, há uma exploração do sofrimento,
uma vez que a insatisfação dos trabalhadores
é utilizada como mecanismo de intensificação
do trabalho, já que uma maneira possível de
expressar a insatisfação seria acelerando o
ritmo de trabalho, sendo o sofrimento psíquico
instrumento para obtenção do trabalho.
Fato semelhante foi observado por Le
Guillant et al.39, que classificaram o quadro
psíquico de telefonistas francesas como uma
síndrome associada a fadiga nervosa, a partir
de quadro anteriormente descrito como
‘neurose das telefonistas’. O desenvolvimento do quadro estaria ligado essencialmente
aos aspectos da organização do trabalho, e,
como observou Dejours18, seria funcional ao
aumento da intensidade do trabalho. Com as
devidas modificações, quadro similar é observado nos teleoperadores com queixas diversas
relacionadas com a saúde biopsíquica.
Assim, fica evidente que a organização
do trabalho nas CTA segue os princípios
tayloristas.
A taylorização da atividade do teleoperador
consiste nisto: aprisionar a força espiritual do
trabalho – e seus conhecimentos práticos – em
uma rotina produtiva marcada pela interação
do trabalho com as tecnologias informacionais
[...]32(13–15).
A organização do trabalho é evidenciada
como mecanismo prejudicial à saúde dos entrevistados, uma vez que 70,1% expressaram
a vontade de mudar algo na forma como o trabalho é organizado. Essas mudanças estavam
direcionadas ao aumento das pausas e do
tempo de refeição; às formas de abordagem da
supervisão; à alteração da gestão baseada em
metas; à maior remuneração pelo atendimento
às metas; à diminuição da pressão psicológica;
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
11
12
Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
e à maior autonomia na realização do trabalho.
No que diz respeito à remuneração para
além do salário fixo, as premiações parecem
mais restritas a incentivos oferecidos por supervisores ou à remuneração variável relacionada com o atendimento de metas. A presença
de metas individuais foi identificada por 83,2%
dos entrevistados, com 56,9% informando
receber adicional pelo seu atendimento, a
maior parte relacionada com o atendimento do TMA. Mesmo com a identificação de
metas e o atrelamento ao salário variável, os
valores auferidos pelo alcance representou
baixo percentual em relação à remuneração
total, sendo 10% do valor recebido em 46,3%
dos trabalhadores. Chama a atenção que 8,9%
dos trabalhadores não sabem informar o valor
da remuneração variável, e 1,1% informou
receber brindes, como chocolates. Surge,
portanto, um taylorismo ‘customizado’7 que
mescla características e princípios do final do
século XIX com aspectos relativos à inserção
das TIC, articulando velhas e novas formas de
organização do trabalho.
Da ‘neurose das telefonistas’ à
‘neurose dos(as) teleoperadores(as)’
O adoecimento na categoria pode ser evidenciado por meio da análise dos dados. Quando
questionados sobre a apresentação de atestado
médico durante o período em que trabalhavam
nas empresas, 69% informaram positivamente; destes, 34,3% relataram ter apresentado
mais de 5 atestados médicos no período. Em
2,8%, a causa informada foram os problemas
psicológicos. Quanto ao adoecimento pelo
trabalho, 30,2% informaram que já adoeceram
ou se acidentaram por causa do trabalho nas
CTA. As causas do adoecimento são variadas,
e em 6,3%, foram apontados os problemas
psicológicos (tabela 3).
Tabela 3. Questionário-entrevista: Aspectos relacionados à saúde (n = 364)
Variável
Categoria
n
%
Acidente trabalho e doença trabalho
Sim
110
30,2
Não
252
69,2
2
0,5
Sim
251
69
Não
113
31
Menos de 3 vezes
82
32,7
3 a 5 vezes
72
28,7
Ignorado/branco
Já apresentou atestado médico
Número de vezes que apresentou atestado médico
Algo do trabalho prejudica a saúde
Morbidade referida (queixas psíquicas)*
Mais de 5 vezes
86
34,3
Ignorado/branco
11
4,4
Sim
231
63,6
Não
131
36,1
Ansiedade
88
24,2
Depressão
60
16,6
Dores de cabeça frequentes
37
10,2
Cansaço recorrente
19
5,2
Outras questões psicológicas
4
1,1
Fonte: elaboração própria.
* No momento da entrevista, foi possível escolher mais de uma queixa relacionada com a saúde, de tal forma que o somatório geral das
queixas (biopsíquicas) ultrapassa os 100%. Na tabela, estão filtradas apenas as queixas psíquicas referidas pelos entrevistados.
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
As queixas relacionadas com o sofrimento
psíquico são ainda mais recorrentes. De acordo
com a morbidade referida pelos teleoperadores, 24,2% relataram ter ansiedade; 16,5%,
depressão; 10,2%, dores de cabeça frequentes;
5,2%, cansaço recorrente; e 1,1% informou
outras questões psicológicas. Apesar da recorrência das queixas, apenas 1,1% informou
realizar acompanhamento psicológico regular,
e 2,2% informaram realizar uso de medicações
antidepressivas.
Com relação aos resultados obtidos por
meio da autoaplicação do SRQ-20, a predisposição geral aos TMC foi de 57,8% (tabela
4), maior que a identificada em estudos com
outras categorias de trabalhadores40–42.
Tabela 4. Distribuição dos grupos de sintomas do SRQ-20 por afirmativas positivas entre teleoperadores (n = 445)
Questões
n
%
178
40,2
Humor depressivo ou ansioso
Assusta com facilidade
Sente-se nervoso, tenso ou preocupado
281
63,4
Tem se sentido triste ultimamente
210
47,3
Tem chorado mais do que de costume
140
31,5
Sintomas somáticos
Dores de cabeça frequente
252
56,6
Falta de apetite
137
30,9
Dorme mal
244
55,3
Tremores na mão
129
29,3
Má digestão
173
39
Sensações desagradáveis no estômago
176
41,1
Dificuldade de pensar com clareza
153
34,5
Decréscimo da energia vital
Dificuldade de realizar com satisfação atividades diárias
204
46
Dificuldade para tomar decisões
178
40,5
Dificuldade no serviço (trabalho penoso, sofrido)
131
29,6
Sente-se cansado o tempo todo
251
58,8
Cansa com facilidade
249
58,2
É incapaz de desempenhar um papel útil em sua vida
76
17,2
Tem perdido o interesse pelas coisas
180
40,5
Pensamentos depressivos
Sente-se uma pessoa inútil, sem préstimo
71
16
Tem tido ideias de acabar com a vida
46
10,7
Fonte: elaboração própria.
Chamam a atenção os resultados das questões presentes nos blocos humor depressivo
e ansioso: 63,3% sentem-se nervosos, tensos
ou preocupados. Bloco sintomas somáticos:
55,3% afirmaram dormir mal. Bloco decréscimo da energia vital: 58,8% dos trabalhadores
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
13
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Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
sentem-se cansados o tempo todo. Já no bloco
pensamentos depressivos: 40,5% responderam
ter perdido o interesse pelas coisas, e 10,7%
relataram ideação suicida.
As possíveis diferenças entre os resultados
do questionário e do SRQ-20, tendo o segundo
enfatizado as questões de sofrimento psíquico,
são provavelmente decorrentes da autoaplicação do teste, pois os trabalhadores sentem-se
mais à vontade para assinalar questões relacionadas com a saúde mental sem o intermédio
do entrevistador.
Fato é que os resultados encontrados expressam prováveis casos de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. Aqui é necessário
traçar um paralelo aos achados de Le Guillant
et al.39 e Dejours18 que estabeleceram relação
dialética entre a organização do trabalho e a
manifestação do sofrimento psíquico de telefonistas francesas.
Le Guillant et al.39, ao caracterizar o progresso técnico na segunda metade do século
XX, verificaram uma aceleração dos ritmos
de trabalho que necessita de consideráveis
esforços de atenção e exigência de velocidade
na realização das tarefas. Essas ‘novas’ características seriam responsáveis por desencadear um quadro de ‘síndrome geral da fadiga
nervosa’, antes identificada como ‘neurose
das telefonistas’.
A síndrome geral da fadiga nervosa é caracterizada pelo sentimento de vazio pós-jornada, sensação de cansaço recorrente
e perda do interesse em realizar atividades
corriqueiras. Também ocorrem distúrbios de
memória, atenção, sono e alterações de humor,
com aumento da irritabilidade e presença de
crises de choro. Hiperemotividade, ansiedade latente, períodos de depressão, ideação
suicidas e até tentativas de suicídios foram
identificados, além de outros sintomas físicos
e psicossomáticos39.
As queixas se assemelham às identificadas
neste estudo, evidenciadas na dimensão singular, conforme relatado. O sofrimento psíquico
das telefonistas foi a antessala dos quadros de
sofrimento psíquico atual dos teleoperadores
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
de Call Center. Entretanto, se existem semelhanças, as atividades atuais também guardam
particularidades, como a introdução de novas
tecnologias, a terceirização dos vínculos, a
intensificação, as características do capitalismo dependente brasileiro e a composição
do cibertariado/infoproletariado com suas
expressões de raça e gênero.
Uma expressão essencial identificada, que
guarda semelhanças entre as duas ocupações,
é a exploração do sofrimento como mecanismo de intensificação do trabalho18. O empobrecimento da atividade desenvolvida, com
uma quase total identificação entre forma e
conteúdo da tarefa, a supervisão constante
e a irritação proveniente de contatos com
clientes são alicerce do permanente estado
de tensão nervosa em que se encontram
esses trabalhadores. O acúmulo desse estado
permanente gera uma agressividade reativa
que será explorada pela organização do trabalho18. Acredita-se que essa semelhança é
fundamental para o funcionamento das CTA
e que as marcantes evidências de sofrimento
psíquico seriam expressão dessa necessidade
de funcionamento. Nas palavras de Dejours:
[...] não é tanto exortando-as a trabalhar mais
rápido, mas provocando a irritação e a tensão
nervosa nas telefonistas, que a controladora
pode obter melhor rendimento18(103).
Assim como no trabalho das telefonistas,
nos teleoperadores, o sofrimento atua como
instrumento para intensificação do trabalho
e, consequentemente, para a ampliação da
exploração sobre a força de trabalho. O esvaziamento de conteúdo das tarefas, que alija a
autonomia dos trabalhadores, a monotonia, a
repetitividade, o controle exercido, em síntese,
a organização do trabalho nos Call Centers,
modula o sofrimento psíquico nos trabalhadores e utiliza os mecanismos de defesa,
como a frustração e a agressividade, em prol
do aumento do ritmo de trabalho. A utilização
dos softwares, a terceirização das atividades e o
uso da telemática são fenômenos que agregam
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
complexidade às novas relações e evidenciam
a passagem da ‘neurose das telefonistas’ para
a ‘neurose dos teleoperadores’.
O sofrimento psíquico e o desgaste
mental dos trabalhadores nas
centrais de teleatividades
O sofrimento psíquico é elemento fundamental para intensificação do trabalho nos Call
Centers. Ao mesmo tempo, evidenciam-se na
pesquisa inúmeras queixas relacionadas com
a saúde mental, que ao ponto que constatam
o quadro de sofrimento psíquico e possibilitam relacioná-lo à organização do trabalho,
também expressam processos danosos à saúde
dos trabalhadores que podem manifestar-se
por meio do desgaste mental. As queixas referidas neste estudo, sobretudo aquelas relativas ao cansaço recorrente, à dificuldade em
tomar decisões, à dificuldade de realizar com
satisfação as atividades diárias, à dificuldade de pensar com clareza associadas a dores
de cabeça frequentes e insônia, evidenciam
o possível quadro de fadiga nervosa desses
trabalhadores.
Seligmann-Silva2 classificou o desgaste
mental em três níveis, que podem ser evidenciados de forma distinta ou articulada. São eles:
1) Desgaste Literal ou Orgânico; 2) Desgaste
Funcional; e 3) Desgaste da Subjetividade.
No trabalho nos Call Centers, interessam os
níveis 2 e 3.
Pela própria organização do trabalho nas
CTA, existe uma expropriação da subjetividade dos teleoperadores, uma vez que estes
passam a executar tarefas de maneira quase
robotizada, com pouca ou nenhuma autonomia. Esse processo de expropriação pode
contribuir para o desgaste, compreendido
como uso deformado e deformante das potencialidades psíquicas dos trabalhadores.
Seguindo nessa linha, o ‘processo de produção’
nas CTA leva a uma fadiga mental e física dos
trabalhadores, conforme evidenciado quando
referido o ‘cansaço recorrente’ e o ‘cansar-se
com facilidade’ apontados pelos entrevistados.
Instala-se aí uma deformação, que afeta, entre
outras esferas da vida, a sociabilidade.
Laurell e Marquez43 analisam o estresse
ou a tensão nervosa como uma importante
característica mediadora da ocorrência lenta
e gradual do processo de desgaste. As autoras
ainda destacam que o estresse está presente na
forma de organização capitalista caracterizada
pela subcarga qualitativa e sobrecarga quantitativa típica da organização taylorista-fordista.
Essa forma de organização possibilita o desgaste do trabalhador por meio do fracionamento
do processo de trabalho, da desqualificação da
atividade desenvolvida, da perda da autonomia
e dos elevados ritmos de trabalho. Todas as
características apontadas pelas autoras são
encontradas no trabalho desenvolvido pelos
teleoperadores.
Outro nível de desgaste observado nos
teleoperadores é o desgaste subjetivo.
Selligman-Silva2, ao analisar as ideias de Yves
Clot, articula as concepções de sofrimento e
desgaste. O sofrimento psíquico nessa perspectiva é caracterizado pelo impedimento
ao agir do trabalhador, seguindo seus valores,
engendrando-se uma impossibilidade do ser.
Neste trabalho, isso é evidenciado a partir de
vivências relacionadas com a gestão e a organização. As frustrações advindas da atividade
com pouco conteúdo, da baixa perspectiva de
ascensão profissional, do baixo reconhecimento e da adoção de posturas que atentam
contra princípios éticos dos trabalhadores são
fundamentos para o desgaste subjetivo, que
atua sobre a identidade e o projeto de vida
dos trabalhadores e pode ter manifestações
somáticas.
Como ponto de intersecção entre as condições de sofrimento psíquico e o desgaste
mental evidenciados, tem-se que: 1) a organização do trabalho nas CTA utiliza o sofrimento
psíquico como instrumento para intensificação
do trabalho; 2) o sofrimento mental utilizado
como estratégia organizacional gera processos
de desgaste mental nos trabalhadores, levando
à perda potencial e/ou efetiva das capacidades; 3) possivelmente, as articulações dessas
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
15
16
Lira PVRA, Souza DO, Amaral AS, Gurgel IGD, Lima MB, Campos AG
características ocasionam a alta rotatividade nos postos de trabalho; e 4) a articulação
desses complexos processos se dá, em última
instância, pela necessidade de reprodução
ampliada do capital.
Considerações finais
O processo produtivo nas CTA é marcado pela
articulação entre novas e velhas relações de trabalho. Ao mesmo tempo que incorporam o uso de
TIC, utilizam formas de organização do trabalho
do início do século XX, como o taylorismo.
Diversas queixas de saúde foram evidenciadas, com destaque para aquelas relacionadas
com a saúde mental dos teleoperadores, que
apresentam maior prevalência indicativa de
TMC associados a processos de sofrimento
psíquico.
Sugere-se que tal achado não é mera arbitrariedade, sendo o sofrimento psíquico elemento
constituinte do trabalho em Call Centers. Essa
característica é funcional na organização do
trabalho nas CTA pela intensificação do trabalho dos teleoperadores. A articulação entre
classe, gênero e raça também é característica
fundamental neste estudo, possibilitando analisar a complexa relação entre exploração da
força de trabalho, subordinação e opressão
na esfera de produção e reprodução da vida.
Por fim, é possível articular a dimensão
do sofrimento psíquico com os processos de
desgaste mental nos trabalhadores de Call
Centers, de modo a compreender possíveis
deformações das potencialidades psíquicas
destes. Acredita-se que a alta prevalência de
*Orcid (Open Researcher
and Contributor ID).
SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 49, N. Especial 2, e10502, Ago 2025
afastamentos, as queixas de saúde e a alta rotatividade no setor são expressões concretas do
desgaste mental, sendo impossível desvincular
as características do processo e da organização
do trabalho à lógica de reprodução ampliada
do capital.
Associado a esta abordagem crítica acerca
da organização do trabalho, faz-se necessário
articular, em curto e médio prazo, instituições
na defesa da Saúde do Trabalhador de forma a
atuar diretamente sob processos relacionados
com a intensificação do trabalho e o desgaste mental. A formulação de políticas públicas, a inserção direta do campo da Saúde do
Trabalhador em espaços decisórios e a atuação
conjunta com o movimento sindical, representativo dos trabalhadores, são alternativas
viáveis para enfretamento da precarização do
trabalho nas CTA.
Colaboradores
Lira PVRA (0000-0002-8588-839X)* contribuiu para concepção e desenho do trabalho,
coleta, análise e interpretação dos dados,
redação, revisão crítica e aprovação da versão
final do manuscrito. Souza DO (0000-00021103-5474)*, Amaral AS (0000-0003-20381296)* e Gurgel IGD (0000-0002-2958-683X)*
contribuíram para concepção e desenho do
trabalho, redação, revisão crítica e aprovação da versão final do manuscrito. Lima
MB (0000-0003-2232-3946)* e Campos AG
(0000-0002-1085-9236)* contribuíram para
a revisão crítica e a provação da versão final
do manuscrito. s
Sofrimento psíquico, intensificação do trabalho e desgaste mental: o trabalho em Call Centers
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Recebido em 14/04/2025
Aprovado em 26/06/2025
Conflito de interesses: inexistente
Disponibilidade de dados: os dados de pesquisa estão contidos no
próprio manuscrito
Suporte financeiro: não houve
Editora responsável: Maria Cristina Strausz
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doi.org/10.11606/S1518-8787.2017051007140
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